Sumários Revista Crítica 74 (2006)

Vivian Liska
Para que tenha significado e para que tenha importância: Um modernismo para o século XXI

Partindo da misteriosa e ambígua figura kafkiana de odradek, o texto desenvolve uma reflexão sobre o que poderá ser um modernismo para o século XXI. Argumenta-se que, longe da certidão de óbito lançada pela vaga pós-modernista, estamos a assistir presentemente a um processo de expansão, através da inclusão de outros actores, culturas e espaços no panteão modernista, por um lado, e, por outro, através do desfazer de fronteiras com diferentes registos, poéticas e períodos e movimentos literários.

Catarina Martins

Dis-soluções textuais na casa dos espelhos modernista

Um dos aspectos mais relevantes do modernismo, enquanto autocrítica da modernidade, é a tentativa de salvar o sujeito das prefigurações normativas da razão moderna. Trata-se de uma busca identitária que implica a derrocada das construções estabelecidas da realidade e a produção de novas narrativas do todo que preservem o individual. O modernismo representa uma racionalidade estética subversiva e auto consciente que tende para um modo do discurso e do pensamento que desenha o sujeito na sua relação com o mundo: o ensaio. Na ficção narrativa de expressão alemã do início do século XX, a confluência de modernismo e ensaísmo conduziu a híbridos textuais que desafiam uma noção de texto fundamentada na compreensibilidade. Diversos efeitos de espelho articulam a dissolução dos paradigmas epistemológicos e estéticos tradicionais com novas soluções para a escrita ficcional da realidade e do sujeito. A reflexividade ensaística surge no centro da reacção do modernismo à modernidade e da redenção sincera e encenada de um Eu irremediavelmente perdido.

Inês Lage Pinto Basto

Alguém mais belo do que eu: Alberto Caeiro, Leopold Bloom, o Portugal de Pessoa, a Irlanda de Joyce e outras Brancas de Neve

Ao definir-se como um quarto de espelhos fantásticos, Fernando Pessoa encontra no espelho a única certeza comum a todas as “reflexões falsas”, a materialização da “única anterior realidade” que os seus inúmeros espelhos “torcem”. Tomando a Branca de Neve como uma sublimação final da beleza usurpadora da Madrasta e a corporização de uma beleza inicial, considerarei os “inúmeros espelhos fantásticos” de Pessoa e o “cracked looking glass” de Joyce como distorcidas sequelas de uma qualquer pureza de origem ou de uma superfície reflectora una. Argumento que Caeiro, Bloom, o Império Espiritual de Pessoa e a “Irlanda Caricatura do Mundo Sério” de Joyce virão a ser a materialização dessa superfície reflectora de origem, brancas de neve posteriores às realidades que lhes são madrastas mas colocadas estrategicamente na sua origem e destinadas a suprir a ausência de uma “única anterior realidade” – pessoal, nacional e global.

Houston Baker, JR

A modernidade e a ruptura transatlântica: Uma reflexão sobre o comércio de escravos

A aplicabilidade global da modernidade tem a sua marca mais relevante no tráfico de escravos transatlântico, em que milhões de africanos foram deportados para o “Novo Mundo”. Analisar a economia do tráfico e as suas implicações diaspóricas resulta no reconhecimento da importância do açúcar como mercadoria e da plantação como meio de produção. Partindo de um prelúdio rememorativo centrado na cidade de Coimbra em Portugal, a análise inclui uma explanação da escravatura nas colónias da América do Norte e das suas implicações hoje para o problema da raça nos Estados Unidos.

Ana Luísa Saraiva

Invertendo a “Passagem Atlântica”: O “regresso” de Richard Wright a África

O texto discute o sentido polémico do “regresso” a África que Richard Wright inscreve em Black Power e a forma como a narrativa da viagem subverte a “Middle Passage”. O sujeito narrativo orienta o leitor através de uma incursão pessoal nos muitos sentidos da modernidade e desdobra a noção de “destino comum”, já apontada em 12 Million Black Voices. Contudo, qualquer sentido de comunidade é aqui necessariamente ambíguo, por estar sempre relacionado com questões de raça e identidade. Black Power é uma narrativa importante para o conceito de modernidade e assinala uma mudança significativa na produção literária de Wright para uma vertente não-ficcional. Esta segunda fase da sua obra contém, no entanto, um paradoxo crucial: enquanto se volta para o exterior, para o mundo mais global, Wright tenta, simultaneamente, inscrever-se como referência sobre o locus do qual nunca poderia demarcar-se: África. Em Black Power, a duboisiana “color line” desdobra-se em múltiplas dimensões.

Paula Elyseu Mesquita

Vestidos para matar: O sexo das guerras em Cather e Faulkner

Procedo neste ensaio a uma leitura comparada de dois romances de guerra do modernismo americano: One of Ours, de Willa Cather, e The Unvanquished, de William Faulkner. A análise debruça-se sobre a construção social do sexo e a subversão de papéis sexuais no contexto instável e destruidor do conflito militar. Focando sobretudo duas personagens, Claude Wheeler and Drusilla hawk, pretendo analisar a guerra como o espaço escolhido pelos dois autores para testar a (in)conformidade sexual dos jovens, bem como a sua capacidade para desafiar as convenções sociais e religiosas. Uma vez que ambos se alistam voluntariamente, a guerra é apresentada tanto como lugar de destruição social como de construção individual. Interessa-me ainda discutir as implicações teóricas do facto de cada um dos autores ter escolhido, para a sua narrativa de ficção, jovens soldados de sexo oposto ao seu.

Susan Stanford Friedman

Batendo palmas a uma só mão: Colonialismo, pós-colonialismo e as fronteiras espácio temporais do modernismo

O ensaio põe em causa a ideia dominante de que o Ocidente inventou a modernidade e o modernismo, enquanto o resto do mundo se limitou a imitar o Ocidente mediante formas dele derivadas. Reflecte sobre as paisagens urbanas de Xangai e Manhattan para desfazer a equivalência comummente aceite entre modernização e ocidentalização, e socorre-se da história mundial comparada e dos estudos pós-coloniais para sugerir novos modos de pensar os limites espácio temporais do modernismo/modernidade. Põe em paralelo as traduções de gravuras japonesas por Cassatt, as adaptações de artefactos africanos por Picasso e a reescrita de Conrad pelo escritor sudanês Tayeb Salih para demonstrar a existência de fluxos culturais transcontinentais na formação de diferentes modernismos.

Maria José Canelo

Dimensões geopolíticas do modernismo. Contraculturas mexicanas na Califórnia

Proponho-me repensar o modernismo tendo em conta a afirmação de Homi K. Bhabha de que “cada repetição do signo da modernidade é diferente, específica das suas condições de enunciação históricas e culturais”. Centrando-me na obra de Carey McWilliams, procuro dar a conhecer e discutir um trabalho crítico que salienta a dimensão geopolítica do modernismo e demonstra que a modernidade não deu, de facto, origem a um tipo único de experiência nos Estados Unidos. Neste caso, o contexto da Grande Depressão, enquanto configuração histórica e cultural específica, exige uma reformulação da expressão e das formas modernistas, na medida em que torna evidente que, quando a modernização fracassa, emergem na sociedade americana fenómenos de desenvolvimento desigual que desafiam a definição de modernidade. A reflexão crítica de McWilliams antecipa configurações críticas actuais, das “contraculturas da modernidade” às “modernidades alternativas”.

Rosa Maria Martelo

Antecipações e retrospectivas: A poesia portuguesa na segunda metade do século XX

Em face da acentuada revalorização da textualidade nas poéticas da década de 1960 em Portugal – perspectiva que, com algumas especificidades, também se verifica no contexto francês e espanhol –, a demarcação dos poetas emergentes na década seguinte é, por vezes, fortemente reactiva. Mas haverá uma diferença essencial entre estas duas inflexões, corporizadas em poéticas aparentemente distintas? e haverá algum momento, na segunda metade do século XX, em que efectivamente se concretize uma ruptura? No presente estudo, procura-se mostrar que, mais do que produzir uma ruptura, as poéticas emergentes nos anos sessenta do século XX consolidam uma tradição de modernidade escolhendo a sua vertente mais radical, enquanto as poéticas subsequentes preferem reatar a tradição mais remota da modernidade, em sentido baudelairiano. Apesar de estarmos perante dois diálogos diferentes com a tradição, é possível observar que, em ambos os casos, esta é retomada a um ponto que nos impede de falarmos de ruptura.

Published 21 July 2006
Original in Portuguese

Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais © Revista Crítica de Ciências Sociais Eurozine

PDF/PRINT

Read more

Cover for: Notes on the networked psyche

Notes on the networked psyche

Exploring online hyper-sensibilities

Cover for: Another media regime is possible

Another media regime is possible

From the liberal public sphere to the information commons

Cover for: Big Brother to the rescue

Big Brother to the rescue

Can artificial intelligence help in Ukraine’s fight against corruption?

Cover for: Lies, fakes and deep fakes

Lies, fakes and deep fakes

Deceptions and scams in the age of Trump

Cover for: The power of law or the law of power?

The power of law or the law of power?

Why Europe must lead the way in the governance of technology

Cover for: Interference everywhere?

Interference everywhere?

Disinformation in the EP election

Cover for: And we dream as electric sheep

And we dream as electric sheep

On humanity, sexuality and digitality

Discussion