Viver e amar para lá da heteronorma

Uma análise "queer" das relações pessoais no século XXI

O presente artigo propõe-se desenvolver uma abordagem queer do estudo das relações pessoais. Inserindo-se no contexto das importantes transformações ocorridas na organização da vida pessoal ao longo dos últimos trinta anos, ele defende que os sociólogos devem desalojar a família e o casal heterossexual do lugar central que ocupam no nosso imaginário intelectual. Faz-se uma crítica à sociologia, motivada pelos quadros heteronormativos em função dos quais esta tem estudado as relações pessoais. De seguida propõe-se um alargamento do quadro usado para a análise das transformações contemporâneas da intimidade, defendendo-se a importância de uma análise queer das mudanças sociais, e sugere-se a necessidade de uma investigação centrada naqueles que vivem na crista dessas mudanças. Por fim, termina-se com uma panorâmica dos resultados da investigação mais recente sobre as práticas de relação daqueles que vivem e amam para lá da heteronorma.

Há neste início do século XXI, no Ocidente, cada vez mais pessoas a passar períodos de tempo cada vez mais longos das suas vidas fora da unidade convencional família.[1] Há processos de individuação que estão a pôr em causa o casal heterossexual romântico e a formação familiar moderna de que este tem sido suporte, ao mesmo tempo que tem vindo a abrandar o poder normativo em que se alicerça a família moderna no que respeita ao sexo e à diferença sexual. Neste contexto, muito do que acontece na vida pessoal de cada um tem lugar, cada vez mais, para lá de “a família”, seja entre parceiros que não vivem juntos “como família”, seja no interior de redes de amigos e/ou amigas.

O presente artigo desenvolve uma analítica com vista ao estudo das relações pessoais, baseada numa avaliação da grande variedade de modos como as pessoas vivem fora da heteronorma. A tese central é que, para entender o estado actual e o futuro provável das relações pessoais, teremos, enquanto sociólogos, de desalojar a família e o casal heterossexual do lugar central que têm ocupado no nosso imaginário intelectual. A primeira secção faz uma crítica à sociologia, motivada pelos quadros heteronormativos em função dos quais esta tem estudado as relações pessoais. A secção seguinte propõe um alargamento do quadro usado para a análise das transformações contemporâneas da intimidade, defendendo a importância de uma análise queer das mudanças sociais, e sugerindo a necessidade de uma investigação centrada naqueles que vivem na crista dessas mudanças. O artigo termina com uma panorâmica dos resultados da investigação mais recente sobre as práticas de relação daqueles que vivem e amam para lá da heteronorma.

Pensar para lá da família heteronormativa

Como pode ver se por uma multiplicidade de séries de televisão de que são exemplo Friends, Seinfeld, Ellen, ou Will & Grace, a cultura de massas tem levado grande vantagem sobre a sociologia no que toca à oferta de histórias em que se explora a florescente diversidade característica da vida pessoal de cada um. Em cada uma dessas séries de TV, é a sociabilidade de um grupo de amigos, e não tanto a família no sentido convencional do termo, que proporciona o amor, o desvelo e o apoio essenciais ao quotidiano das cidades.[2] A popularidade destas séries é de molde a sugerir que estas transmitem algo de importante sobre as vidas dos respectivos espectadores. No entanto, se formos à sociologia em busca de bibliografia para procurar entender o mecanismo das relações, parece que o amor, a intimidade e o desvelo se desenrolam quase exclusivamente sob os auspícios da “família”.

Têm-se efectivamente verificado, em subcampos específicos das sociologias da família e da diferença sexual, mudanças significativas. Estas têm, por exemplo, procurado dar resposta, quer ao desafio empírico colocado pelas alterações verificadas nas relações familiares e de género, quer ao desafio teórico advindo das perspectivas de ordem anti-essencialista, pós-moderna, feminista, étnico-minoritária, negra, lésbica e gay, mais a sua ênfase na diferença e na diversidade. Mais do que isso, essas sociologias, inicialmente centradas no estudo da “família e comunidade”, “agarradas uma à outra como gémeos siameses” (Morgan, 1996: 4), iriam posteriormente debruçar-se sobre a primeira fase da acção feminista, centrada nas divisões desiguais do género quanto à prestação de cuidados e à intimidade vivida na família (Graham, 1987; Duncombe e Marsden, 1993; Finch, 1989), passando finalmente para uma preocupação predominantemente centrada na análise das mudanças ocorridas na família –especialmente através do estudo do divórcio, do reacasalamento e da coabitação– e no reconhecimento da diversidade familiar (Smart e Neale, 1999; Stacey, 1996; Silva e Smart, 1998).

Além disso, muitos dos sociólogos que se dedicam ao estudo da família têm-se debruçado sobre o problema do próprio conceito de “família”, numa época marcada por níveis crescentes de desagregação e re-composição familiar. Assim, David Morgan (1996), por exemplo, sugere que usemos a palavra “família” mais com um sentido adjectivo do que como substantivo, propondo a noção de “práticas de família” para contrariar a reificação do conceito. Outros autores, na tentativa de encontrar resposta para as transformações sociais e para os desafios colocados pelos movimentos gay-lésbicos e seus teóricos, têm pluralizado a noção de “família”, optando por isso, hoje em dia, por falar sempre em “famílias”. A abordagem actualmente dominante, nas sociologias anglo-americanas do género e da família, acentua a diversidade das suas formas e experiências e o modo como a pertença à família tem sofrido variações ao longo do tempo, à medida que esta se tem vindo, ela própria, a desagregar e re-compor. Não há dúvidas de que, nas suas incarnações mais progressistas, esta abordagem acolhe as “famílias de escolha” gays e lésbicas sob a “tenda da família” (Stacey e Davenport, 2002; Stacey, 2004).

Esta mudança foi importante. Ela vem contrapor-se ao discurso político dos “valores da família”, um discurso anti-gay e antifeminista que ganhou força nos Estados Unidos da América e no Reino Unido durante as duas últimas décadas do século XX (Roseneil e Mann, 1996; Stacey, 1996; Weeks, 1995; Wright e Jagger, 1999). Mas estas tentativas de pluralizar as noções de “família”, mesmo quando acolhem o estudo de famílias gays e lésbicas, revelam-se insuficientes para a tarefa que é entender toda a gama de formações contemporâneas da vida pessoal, e isso por duas razões. Primeiro, porque não mudam em nada a heteronormatividade do imaginário sociológico; e, segundo, porque se baseiam numa análise inadequada das transformações sociais contemporâneas.

Não obstante ter alargado o âmbito do significado do termo “família” por forma a abranger um leque mais amplo de “famílias de escolha”,[3] a sociologia continua a marginalizar o estudo do amor, da intimidade e do desvelo vividos para lá da realidade familiar. A disciplina estriba-se em pressupostos heteronormativos; ou seja, em “instituições, estruturas de compreensão e orientações práticas que fazem com que a heterossexualidade pareça não apenas coerente –quer dizer, organizada como uma sexualidade– mas também privilegiada” (Berlant e Warner, 2000: 312). Os investigadores continuam a produzir análises esmagadoramente centradas nas relações (sobretudo hetero-)sexuais de tipo monógamo, diádico, co-residente, e de que resultaram filhos, bem como nas transformações ocorridas no interior de tais relações. O inquérito sistemático sobre a investigação sociológica britânica levado a cabo por Jo Van Every (1999) e os escritos publicados por esta autora em 1993 sobre a realidade das famílias e dos agregados permitem concluir que existe “um esmagador enfoque na Œfamília nuclear moderna¹”, que, por sua vez, consta de casais unidos pelo matrimónio e vivendo em agregados familiares apenas com os filhos. Van Every sustenta de modo convincente que, “não obstante as advertências da sociologia quanto à dificuldade de definir a família e a pluralidade e diversidade das formas que esta assume nas sociedades contemporâneas (pós-modernas?), os sociólogos foram ajudando a construir uma família Œnormal¹, parecidíssima com aquela que uma geração anterior de sociólogos se sentira à vontade para definir” (1999: 167).

As “intimidades situadas fora do padrão” (Berlant e Warner, 2000), criadas por aqueles que vivem sexualidades não-normativas, vêm colocar especiais desafios a uma disciplina que sempre estudou a vida pessoal primordialmente por via do estudo das famílias. Alguns gays e lésbicas referem-se às redes afectivas em que se inserem, de modo muito deliberado – e muitas vezes com uma ironia intencional –, como sendo a sua “família”.[4] Quando, porém, autores como Kath Weston (1991), Jeffrey Weeks et al (2001), e Judith Stacey (2004) adoptam a expressão “famílias de escolha” para se referirem às relações lésbicas e gay e às redes de amizade, tal facto pode efectivamente desviar a atenção da natureza extrafamiliar e radicalmente contra-heteronormativa de muitas destas relações.

A investigação sociológica e antropológica demonstra amplamente que a amizade é especialmente importante para as lésbicas e os gays (Altman, 1982; Weston, 1991; Nardi, 1992 e 1999; Weeks, 1995; Preston e Lowenthal, 1996; Roseneil, 2000a; e Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). O contexto em que umas e outros vivem as respectivas vidas pessoais é formado por redes de amigos, que desse modo lhes oferecem estabilidade emocional, companhia, prazer, e ajuda no plano prático. Por vezes alvo de rejeição, de objecção e de exclusão pelas respectivas famílias de origem, lésbicas e gays constroem e mantêm vidas que correm o seu curso fora do quadro da família nuclear heterossexual, estribando a sua segurança emocional e o seu quotidiano nos respectivos grupos de amigos. Estudos como os de Weeks, Heaphy e Donovan (2001) ou como os de Roseneil (2000a) chamam a atenção para o esbatimento das fronteiras e para a fluidez das relações sexuais e de amizade que frequentemente caracterizam as intimidades gay e lésbica nos dias de hoje. Há amigos e amigas que se tornam amantes, amantes que evoluem para relações de amizade, e existe muita gente que tem parceiros sexuais com graus variáveis (ou nenhum grau) de comprometimento. Com efeito, a nossa “pessoa de eleição” pode ser alguém com quem não mantemos um relacionamento sexual. As intimidades não-heteronormativas – ou seja, relações significativas e definidoras de toda uma vida, estabelecidas entre amigos, amantes não-monógamos, ex-amantes, parceiros a viver separados, ou entre pessoas que simplesmente não se encaixam no sistema de classificação binária “amigo(a)”/”amante” – e as redes de relações em que tais intimidades acham (ou não) o seu suporte, têm o seguinte significado: elas destronam a centralidade habitualmente conferida às ligações com parceiros sexuais, além de que questionam o privilegiar das relações conjugais por parte da investigação sobre a intimidade. Tais práticas, relações e redes raramente são objecto de menção no contexto de uma literatura sociológica onde se conserva um imaginário que, sem explicitamente o reconhecer, vê o casal heterossexual como sendo o cerne da formação social, o coração que bombeia o sangue da reprodução social.

Na realidade, pouco mudou desde que, em 1979, Beth Hess chamou a atenção para a circunstância de “não existir um grande corpus chamado Œsociologia da amizade¹”(Jerrome, 1984: 699), que sirva de arquivo alternativo ao estudo da intimidade e do desvelo para lá da família. Mas não foi só a heteronormatividade da disciplina que remeteu a amizade para um estado de grande invisibilidade. Igualmente importante, nesse processo, foi o facto de a tradição sociológica, a partir dos grandes homens que a fundaram – a distinção de Tönnies entre Gemeinschaft e Gesellschaft, o trabalho de Marx sobre a alienação, os contributos de Durkheim sobre as formas de solidariedade social, ou ainda os de Weber a propósito da burocratização –, ter partido do pressuposto de que o desenvolvimento da modernidade torna as relações pessoais cada vez mais impessoais, com os vínculos afectivos a ser vistos como algo cada vez mais marginal. O resultado foi que a disciplina nunca conferiu ao estudo das relações informais, privadas, e de sociabilidade uma importância idêntica àquela com que tratou as questões de organização pública, económica e política.[5]

A amizade situa-se no âmbito daquilo que proporciona prazer, tanto emocional como afectivo, e essas são áreas relativamente descuradas pelos sociólogos sérios, apostados na pesquisa dos mecanismos de afirmação da ordem, e concretamente das questões de estrutura, da regulação e da institucionalização. É possível encontrar excepções, como sejam a obra de Simmel (1950), os trabalhos etnográficos de Whyte (1943) sobre a street corner society (“sociedade da esquina”), os escritos de Litwak e Szelenyi (1969) sobre os “grupos primários” constituídos por familiares e amigos, e ainda a investigação desenvolvida nas décadas de 1950 e 1960 em torno da tradição britânica dos community studies. Em tempos mais recentes, surgiu um pequeno número de estudos sobre a amizade (Booth e Hess, 1974; Fischer et al., 1977; Fischer, 1982a; 1982b; Allan, 1979; Hess, 1972; 1979), Jerrome, 1984; O¹Connor, 1992; Hey, 1997; Adams e Allan, 1998; Nardi, 1999; Pahl, 2000; Pahl e Spencer, 2004; Spencer e Pahl, 2006), assistindo-se também ao crescimento de um campo de investigação sobre novas formas de sociabilidade impulsionadas pelas novas tecnologias (Rheingold, 1993; Shields, 1996; Wakeford, 1998), no entanto a disciplina não dispõe, para o estudo da amizade, de um subcampo que possa comparar se à já bem firmada sociologia da família e do parentesco. É tempo de mudar tal situação, no sentido de uma investigação centrada na amizade, nas formas “não-convencionais” de relacionamento sexual/amoroso, e nas conexões recíprocas entre uma e outras.

As transformações sociais queer e a análise da vida pessoal contemporânea

Há toda uma vasta bibliografia que possui como ponto de partida a crença segundo a qual estamos presentemente a atravessar um período de profundas transformações sociais no que se refere à organização da vida pessoal contemporânea. Assim, Manuel Castells (1997), por exemplo, no contexto de uma tese mais abrangente e relativa ao desmembramento do sistema de patriarcado, propõe que a família patriarcal é hoje alvo de um questionamento intenso e que os movimentos lésbico, gay e feminista verificados em todo o mundo são fundamentais para se entender esse questionamento. A tese de Anthony Giddens (1992) relativa à “transformação da intimidade” e o trabalho de Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim (1995, 2002) sobre os significados e as práticas em mutação no que concerne às relações amorosas e familiares são de molde a fazer crer que, no mundo contemporâneo, os processos de individuação e de des-tradicionalização e a auto-reflexividade crescente estão a fazer com que se abram novas possibilidades e novas expectativas para as relações heterossexuais.[6]

Com não mais que uma apressada vénia na direcção do activismo feminista e da investigação efectuada nessa área, aqueles trabalhos reconhecem a relevância das mudanças ocorridas nas relações entre os sexos e devidas, na sua maioria, à alteração de consciências e de identidades vivida pelas mulheres na sequência do movimento de libertação da mulher. Giddens considera que as transformações presentemente em curso no domínio da intimidade são de uma “enorme e generalizável importância” (Giddens, 1992: 2). Este autor traça as alterações verificadas na natureza do casamento, como seja o surgimento da “relação pura” caracterizada pelo “amor confluente”, uma relação de igualdade sexual e emocional entre homens e mulheres. Giddens associa este facto ao desenvolvimento da “sexualidade plástica”, “liberta das necessidades de reprodução” (Giddens, 1992: 2). Por isso ele vê as lésbicas e gays como os “pioneiros” da relação pura e da sexualidade plástica, gente na vanguarda dos processos de individuação e de des-tradicionalização.[7] Segundo Beck e Beck-Gernsheim, “a ética do êxito e da realização pessoal constitui a marca mais forte da sociedade moderna (2002: 22). Estes autores acreditam que o desejo de ser “um ser humano capaz de tomar decisões e de moldar a realidade, que aspira a ser o autor ou autora da sua vida”, está a dar origem a modificações inauditas na forma que a vida em família assume. A pertença a uma família deixa de ser um dado adquirido para passar a ser uma questão de escolha. À medida que os vínculos sociais se tornam reflexivos e que, cada vez mais, a individuação caracteriza as relações entre os membros de uma mesma família, avançamos para o mundo da “família pós-familiar”.

Se é certo que todo este conjunto de trabalhos exagera talvez o grau das mudanças verificadas, subvalorizando, ao mesmo tempo, a persistência das desigualdades de género e das diferenças de classe no plano da vida íntima (Jamieson, 1998), por outro lado ele desenha o terreno teórico a partir do qual a pesquisa do futuro da vida pessoal deve prosseguir, além de que demonstrou ser uma influência marcante para aqueles que estão a fazer investigação empírica sobre as transformações da família. Contudo, toda essa literatura referida está longe de esgotar os recursos necessários à análise teórica das mudanças sociais contemporâneas, de que deve lançar mão quem hoje quiser abalançar se à compreensão das culturas da intimidade e do desvelo. É, com efeito, importante ver também as transformações que a organização sexual do social, considerada em sentido amplo, está actualmente a atravessar.

Pretendo lançar a ideia de que assistimos hoje em dia a uma significativa desestabilização do binarismo homossexual/heterossexual, tão característico da ordem sexual moderna. A relação hierárquica entre os dois lados deste binarismo, bem como a sua transposição para uma oposição de tipo dentro/fora (Fuss, 1991), estão a ser sujeitas a um questionamento intenso. Há no mundo contemporâneo um conjunto de “tendências queer[8] que estão a contribuir para a quebra desse binarismo. Há, por exemplo, na maioria dos países, uma corrente no sentido da “normalização” do homossexual (Bech, 1999), e há também passos progressistas no sentido da igualização das condições sociais e jurídicas concedidas às lésbicas e aos gays.[9] A aprovação em 2004, no Reino Unido, da lei das Uniões Civis (“Civil Partnerships Act”) é disso um dos melhores exemplos, já que concede um estatuto jurídico parecido com o do casamento aos casais de lésbicas e gays que desejem oficializar a respectiva união. Tal facto aproxima institucionalmente lésbicas e gays da heteronorma, assinalando uma viragem significativa no entendimento público da noção de casal de cônjuges. E desta forma, aos olhos da lei, das políticas sociais, e da cultura pública os modos de vida homossexual e heterossexual passam a ter diferenças menos vincadas.[10]

Mais relevante para a minha presente argumentação, porém, é a circunstância de existir uma tendência para o fim da centralidade das hetero-relações, tanto no plano social como do do indivíduo. O casal heterossexual e, em especial, o casal heterossexual unido pelo matrimónio, com filhos e vivendo em coabitação, deixou de ocupar o lugar central que tinha nas sociedades ocidentais, não podendo, por isso, continuar a dar-se como adquirido que seja tomado por unidade básica da sociedade. Tal aconteceu em resultado das transformações sociais acima esboçadas, com saliência para o aumento da taxa de divórcio, dos nascimentos fora do casamento, da monoparentalidade, do viver desacompanhado, e da ausência de filhos. As pessoas estão a libertar-se do guião heterossexual tradicional e dos padrões de hetero-relacionalidade que lhe costumam andar associados. Por toda a Europa, assim como na América do Norte e na Austrália, a família convencional é hoje, e cada vez mais, uma prática minoritária. No Reino Unido, por exemplo, entre 1971 e 2005 a percentagem de agregados constituídos por um casal heterossexual com filhos dependentes caiu de 35% para 22%, enquanto a percentagem da população a viver inserida em agregados caiu de 52% para 37% (Social Trends, 2006). O número de agregados monoparentais aumentou de 3% para 7%, ou seja, para mais do dobro,[11] enquanto o número de pessoas a viver sozinhas disparou de 18% para 29%, sendo que a subida mais acentuada, de 6% para 15%, se deu na população abaixo da idade da reforma e, concretamente, no grupo etário situado entre os 25 e os 44 anos, quer dizer, exactamente aquele formado por pessoas de quem mais se esperaria que se fixassem de acordo com o modelo do casal heterossexual e reprodutivo (Social Trends, 2006).[12] Tudo isto significa que os arranjos e disposições do viver contemporâneo são diversos, fluidos e estão ainda em evolução, e que as hetero-relações deixaram de ter a hegemonia que já tiveram.

Alguns sociólogos têm vindo a reconhecer a importância destas mudanças ocorridas na organização sexual do social. Judith Stacey entende-as em termos de uma “queerização da família” (Stacey, 1996): os significados associados à ideia de família estão a ser submetidos a desafios radicais, agora que um número cada vez maior de grupos de parentesco se vão mostrando capazes de aceitar toda a diversidade de práticas sexuais e de disposições de vida em comum adoptadas pelos seus membros. Stacey adianta que serão poucas, hoje, as famílias em que não haja pelo menos alguns membros – sejam mulheres divorciadas, mães e pais solteiros, lésbicas, homens bissexuais ou gays – que divirjam da prática hetero-relacional normativa e tradicional. A observação de Anthony Giddens segundo a qual lésbicas e gays estão a abrir caminhos novos tanto para si próprios como para as pessoas heterossexuais é retomada por Jeffrey Weeks, Brian Heaphy e Catherine Donovan, os quais sugerem que “um dos traços mais notórios das transformações ocorridas no plano doméstico nos últimos anos é [Š] o surgimento de padrões comuns nos modos de vida tanto homossexuais como heterossexuais, em consequência daquelas mudanças de longo prazo sofridas pelos padrões de relacionamento” (Weeks, Heaphy e Donovan, 1999: 85). Para estes autores, homossexuais e heterossexuais anseiam, de igual modo, por uma “relação pura”, vivem o amor como algo de contingente e confluente, e procuram viver os seus relacionamentos sexuais em termos de uma ética da amizade (Weeks, Heaphy e Donovan, 2001).

O que tudo isto parece indicar é que é necessário aprofundar a investigação, de maneira a explorar melhor as vidas de quem se encontra na vanguarda destes processos de transformação social. E foi isso, precisamente, que se propôs fazer o “Care, Friendship and Non-Conventional Partnership Project” (“Projecto sobre o Desvelo, a Amizade e as Uniões Não-Convencionais”).

Viver e amar para lá da heteronorma

A perda de centralidade das hetero-relações indiciada pelo conjunto dos dados estatísticos analisados fornece o pano de fundo à investigação de tipo qualitativo que eu próprio tenho vindo a levar a cabo, sobre as práticas contemporâneas da vida pessoal. O “Projecto sobre o Desvelo, a Amizade e as Uniões Não-Convencionais”[13] partiu do reconhecimento de que é cada vez maior o número de pessoas a viver fora do convencionalismo das hetero-relações, e centrou-se naqueles que pode dizer-se caracterizados pelo mais elevado grau de individuação na nossa sociedade – as pessoas que vivem sem companheiro ou companheira. A investigação debruçou-se, então, sobre quem é importante para as pessoas que vivem fora do casal heteronormativo convencional, o que é que essas pessoas valorizam nas respectivas relações pessoais, que atenções ou cuidados prestam àqueles que consideram importantes para si, e que atenções ou cuidados prestam a si próprias.

Foram feitas entrevistas em profundidade a 53 pessoas com idades entre os 25 e os 60 anos, em três localidades do Norte de Inglaterra: uma antiga cidade mineira, relativamente convencional no que concerne a relações entre os sexos e de família; uma cidade pequena, em que os estilos de vida alternativos, “descontraídos” e de classe média e o desalinhamento dos padrões sexuais são uma realidade comum; e um problemático bairro multi-étnico de uma grande cidade, caracterizado por um leque variado de práticas relativas à diferença sexual e à família, por uma população activa com uma percentagem de mulheres acima da média, e por um elevado número de agregados de uma só pessoa e sem casais. A amostra compreendeu homens e mulheres, com e sem filhos, representativos de um vasto espectro no respeitante a idade, perfil étnico e sócio-económico, ocupação e orientação sexual, e apresentando uma larga diversidade nos arranjos e disposições domésticos dos respectivos agregados. O estudo proporcionou uma visão pormenorizada dos contornos e da textura da vida pessoal de um conjunto de indivíduos que não vivem na metrópole queer e dos quais só muito poucos se identificam como sendo radicais no respeitante a género e sexo. Mesmo assim, a investigação feita encontrou provas de algumas práticas de intimidade de tipo decididamente contra-heteronormativo. Foram elas o estatuto prioritário conferido à amizade, a perda de centralidade das relações sexuais/amorosas nas narrativas de vida das pessoas, e a experimentação para lá da conjugalidade heteronormativa.

A amostra revela, de uma forma consistente, que quer os homens quer as mulheres das três localidades e de todas as idades, estilos de vida, ocupações e perfis sexuais, atribuíam um valor elevado aos seus amigos e amizades. Verificou-se a ocorrência de um sólido discurso acerca da importância e da necessidade da amizade num mundo caracterizado pela mudança e pela insegurança. Os amigos figuravam com mais frequência do que os pais ou os irmãos no círculo mais íntimo dos mapas de relacionamento que pedimos aos entrevistados para desenharem, sendo pequenas as diferenças, quanto à importância atribuída aos amigos, entre as pessoas a viver sozinhas e as pessoas a viver em relações a dois. Era sobretudo dos amigos que, em grande parte, provinha o desvelo e o apoio emocional recebido pelos entrevistados, principalmente quando confrontados com o fim de uma relação sexual/amorosa, bem como muita da ajuda prática e do apoio recebidos no dia-a-dia. A maioria dos entrevistados contava, entre a sua “comunidade pessoal” (Pahl e Spencer, 2004), com um misto de amizades de longa data e outras mais recentes, e na sua maior parte contava também com um leque de amigos com um grau variável de proximidade. Muitos possuíam uma comunidade de eleição, isto é, uma constelação de amigos a viver numa mesma área, e outros haviam-se esforçado activamente por construir entre a vizinhança uma comunidade de amigos, fosse mudando de casa para ir morar perto de amigos, fosse incentivando os amigos a vir morar perto de si. Estas redes de amizade locais mantinham hábitos de convivência e dedicavam-se a tarefas várias de apoio mútuo, como por exemplo no que se referia a tratar dos filhos.[14] O espaço físico do lar, que no Reino Unido, desde a ascensão do modelo igualitário de casamento chamado companionate marriage, anda culturalmente associado ao casal de cônjuges e à família nuclear, tornou-se um lugar muito menos privativo, aberto agora às visitas dos amigos, que lá vão para “estar à vontade” e por vezes para ficar durante períodos prolongados, sobretudo em alturas de crise pessoal. Foram várias as pessoas entrevistadas que consideraram como seus amigos próximos os ex-amantes, ex-companheiros ou ex-cônjuges, registando-se uma fluidez assinalável entre as categorias amigo e amante.

A par da importância conferida à amizade, registou-se uma perda da centralidade dos relacionamentos sexuais/amorosos nas narrativas dos entrevistados. Verificou-se uma clara tendência no sentido da depreciação da relação em casal, tanto por parte de pessoas envolvidas em relações como por parte de pessoas sozinhas. Apenas uma das entrevistadas, uma imigrante de data recente e com família no estrangeiro, considerava o respectivo companheiro a pessoa mais importante da sua vida, com exclusão de todas as outras. Para todos os outros entrevistados, as pessoas mais importantes eram, ou os amigos, ou um misto formado pelos amigos, companheiro ou companheira, filhos, e família. O que estes resultados traduzem é que o relacionamento sexual/amoroso raramente era concebido como sendo um espaço exclusivo da intimidade, e na verdade nem sequer chegava a ser o espaço primeiro dessa intimidade. Ao reflectirem, eles próprios, sobre a sua situação, muitos entrevistados manifestaram a opinião de que esta perda de centralidade dos relacionamentos sexuais/amorosos decorria de uma experiência de divórcio ou do fim de um relacionamento longo e em regime de coabitação. A seu ver, a dor e o transtorno daí resultantes faziam com que as relações sofressem uma reorientação – ou seja, davam origem a dois fenómenos ligados entre si: a minimização dos relacionamentos sexuais/amorosos e a crescente valorização das amizades. Não se tratava, nesses casos, de uma fase passageira, e as pessoas envolvidas não regressavam às convencionais relações de casal na primeira oportunidade que se lhes deparasse. Ao entrevistar de novo as pessoas, passados entre um ano e meio a dois anos, verificou-se uma assinalável consistência na priorização da amizade.

A investigação aqui relatada demonstra portanto, e de forma concludente, que as pessoas entrevistadas não praticavam o modelo heteronormativo e “companheirista” do casal conjugal,[15] o qual estabelece que o relacionamento sexual/amoroso implica a coabitação (se não já o casamento), que ele é o espaço primeiro (se não exclusivo) da intimidade, e que se não atingiu essa meta, é para ela que, pelo menos, se dirige. Muito poucos de entre os entrevistados manifestaram o desejo consciente de fazer parte de um casal ou de uma família a viver, convencionalmente, em regime de coabitação. Em desconformidade com a teleologia das relações, a qual, sendo heteronormativa e dominante, estipula que uma relação deve “ir a algum lado” – sendo que esse algum lado é a partilha de um tecto e um comprometimento de longo prazo –, o relacionamento sexual/amoroso surge descrito como algo que tem a ver com a construção do prazer mútuo no tempo presente. Como tal, esse relacionamento implica um importante grau de reflexão e de amadurecimento, bem como de debate e negociação. De entre os entrevistados com companheiros, quase todos haviam optado por não viver juntos. Eram muito poucos os que encaravam a coabitação como o inevitável e desejável passo seguinte da sua relação, questionando implicitamente, desse modo, a expectativa segundo a qual o relacionamento sexual deve avançar, lógica e inexoravelmente, no sentido da coabitação, para depois, finalmente, “assentar”. Não obstante as diferenças de classe, de género e de sexualidade que os caracterizavam, os entrevistados, com apenas algumas excepções, não faziam da coabitação um objectivo inequivocamente almejado. Eram esmagadoramente firmes na sua ideia de não viver com um companheiro ou companheira, e quase todos consideravam as relações sem coabitação como modos de viver válidos e não como patamares no percurso para uma relação mais “condigna”. Muitos destes relacionamentos tinham também em comum a rejeição da narrativa romântica, distinguindo de forma clara o sexo do enamoramento, e havia um pequeno número de relacionamentos heterossexuais que apresentava óbvias semelhanças com os “parceiros de foder” mencionados por vários dos entrevistados gays.

Subjacente a estas orientações achava-se uma vasta e profunda ambivalência quanto ao modelo do casal vivendo em coabitação. Muitos dos relacionamentos sexuais/amorosos dos entrevistados davam-se fora do paradigma do desejo de “assentar”, tratando-se, em grande medida, de projectos em curso – ou seja, algo entendido e aceite como contingente, fluido, e ainda em evolução. Esta descrição contém ecos da noção de “relação pura” de Giddens (1992) e da metáfora do “amor líquido” de Bauman (2003). Tendo eu, noutro local (Roseneil, 2004b), expressado críticas àquilo a que chamei o “pessimismo patriarcal” de Bauman, cuja visão da vida íntima contemporânea dá um quadro saudosista das famílias estáveis e das comunidades protegidas dos tempos de outrora, é de assinalar que o carácter processual e incerto de muitos dos relacionamentos sexuais/amorosos deste estudo tem ecos de alguns dos temas presentes na análise de Bauman.

A concluir

O que a investigação aqui descrita parece indicar é que, de um modo geral, os sociólogos não estão a dar se conta da frequência com que as pessoas, normalmente por opção própria, têm vindo a substituir os laços de sangue pelos laços de amizade, mormente no que diz respeito ao apoio emocional e ao desvelo dispensado no quotidiano. A disciplina não se mostra capaz de dar conta do facto de as relações que estão no cerne das vidas íntimas das pessoas não poderem ser entendidas a partir da realidade “família”. Para conseguir ver a intimidade e o desvelo pela lente queer, é preciso que os sociólogos se ocupem do estudo daqueles que não fazem parte das famílias ou dos casais convencionais. Agora que cada vez mais pessoas passam porções significativas das suas vidas fora dessas formas de relacionamento, tal estudo poderá facultar-nos uma perspectiva acrescida sobre aqueles que vivem na crista das transformações sociais. No contexto da individuação e da desestabilização do binarismo homossexual/heterossexual, as práticas da intimidade e do desvelo deixaram de poder ser entendidas (se é que alguma vez o puderam ser) unicamente através do prisma das famílias e do parentesco. Com efeito, é bem provável que a indagação sobre as redes e fluxos da intimidade e do desvelo, sobre a extensão e configuração de tais redes, sobre a viscosidade e velocidades de tais fluxos, e ainda sobre as implicações da sua ausência, se mostre mais proveitosa, para a investigação futura, do que quaisquer tentativas de interpretar as vidas pessoais contemporâneas através de eventuais redefinições do conceito de “família”.[16] Lançando o olhar sociológico sobre as intimidades e as práticas de desvelo onde quer que ocorram – no espaço público e no doméstico, no espaço laboral e no espaço virtual, entre amigos, entre parceiros sexuais, na família, entre vizinhos, entre colegas de trabalho ou simples conhecidos –, o estudioso poderá fazer luz sobre práticas até agora só raramente estudadas pela sociologia da família. Impõe-se uma nova sociologia das relações pessoais, capaz de dar conta de um leque mais amplo de práticas de intimidade e desvelo.

Alargando as percepções sociológicas das mudanças ocorridas na vida pessoal para além do seu habitual enfoque na família e nas intimidades heterossexuais, este artigo propôs olhar os processos da transformação social por uma lente queer, de maneira a dar conta de práticas não-heteronormativas que raramente constam da agenda sociológica. As práticas da vida pessoal das pessoas abrangidas pela minha investigação – a concessão de prioridade à amizade, a correspondente perda de prioridade dos relacionamentos sexuais/amorosos, e a experimentação com relacionamentos sexuais/amorosos para lá do modelo do casal convencional – revestem-se de um grande significado potencial para a sociologia. Não obstante tratar-se de um estudo de uma dimensão relativamente pequena, o facto de o grupo de pessoas estudado se encontrar na vanguarda de processos de individuação e de constituir um sector da população em rápido crescimento faz com que os resultados da investigação apontem para uma tendência social importante e emergente – a queerização da vida pessoal. Há hoje um número cada vez maior de pessoas cujo viver põe em causa a divisão do social em modos de vida heterossexuais e homossexuais, e que contestam as normatividades da heterossexualidade e da hetero-relacionalidade. À medida que, cada vez mais, a vida íntima transcende não só a categoria “família” mas também o modelo do casal, certas práticas que antes poderiam ser vistas como claramente “homossexuais” – como sejam colocar a amizade no centro das nossas vidas e rejeitar a convencional conjugalidade em coabitação – estão a tornar-se cada vez mais difundidas.

Esta convergência entre modos de vida homossexuais e heterossexuais por parte de pessoas situadas num dos extremos do espectro da individuação está a dar-se em paralelo a uma convergência semelhante, localizada no outro extremo do espectro, por parte daqueles que optam por viver como casais, pela coabitação e, muitas vezes, por ter filhos. Tudo isto numa altura em que, em muitos países, as uniões civis e o próprio casamento se tornam acessíveis a parceiros do mesmo sexo em termos semelhantes aos que são concedidos ao casamento heterossexual. Apesar de ser ainda demasiado cedo para declarar por finda a hierarquia homossexual/heterossexual, tal binarismo está a ficar cada vez mais instável.

 

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[1] O presente artigo baseia-se em grande medida em Roseneil e Budgeon (2004) e Roseneil (2005). Para um aprofundamento das propostas aqui contidas, ver Roseneil (2007).

[2] Traduz-se por desvelo a palavra “care”, reiteradamente utilizada no original, e que comporta um conjunto de conotações em que se combinam as ideias de carinho, preocupação, atenções dispensadas, cuidados (e.g. de saúde) prestados, etc. [N. do T.]

[3] Ingraham (1996) sustenta que a sociologia feminista e a sociologia do género, mais os estudos empreendidos por uma e outra sobre, especificamente, a violência sexual, o casamento e a família, dependem de um imaginário heterossexual, defendendo também que o estudo do género deve dar lugar ao estudo do heterogénero.

[4] Weston (1991), Nardi (1993, 1999), Preston e Lowenthal (1996), Weeks, Heaphy e Donovan (2001). Debruçando-se sobre as diferenças dos respectivos entrevistados no que se refere à adopção do termo “família” para descrever as suas relações íntimas, Weeks, Heaphy e Donovan reconhecem que muitos deles rejeitam o termo.

[5] Esta mesma ideia é defendida por Graham Allan, um dos poucos sociólogos britânicos que fizeram do estudo da amizade o campo privilegiado da sua investigação (Allan, 1979 e 1989; Adams e Allan, 1998).

[6] A investigação sobre os deveres da família, levada a cabo por Finch (1989) e por Finch e Mason (1993), sugere que os laços familiares são hoje em dia entendidos menos como obrigações constituídas por laços de sangue fixos do que como compromissos negociados, que se diferenciam de outras relações de uma forma mais ou menos clara.

[7] Neste seu reconhecimento das identidades e práticas não-heterossexuais, a obra de Giddens difere das de Beck e de Beck-Gernscheim, uma vez que estas não têm em conta o facto de se ocuparem exclusivamente da heterossexualidade.

[8] Para uma explanação mais pormenorizada, ver Roseneil 2000b e Roseneil 2002. Essas tendências queer são as seguintes: a autocrítica queer, a perda de centralidade das hetero-relações, o surgimento da hetero-reflexividade, e a valorização cultural do queer. A palavra “tendência” é aqui utilizada de modo deliberado, para traduzir a natureza ainda provisória destas alterações e tendo em mente a existência de tendências de sentido oposto. A utilização do termo deve-se a Sedgwick (1991).

[9] Adam, 2001. Sobre o excepcionalismo norte-americano, ver Adam, 2003.

[10] Para uma crítica das limitações da Lei das Uniões Civis do ponto-de-vista queer, ver Roseneil, 2004a.

[11] Número relativo a pais ou mães a viver sós e com filhos dependentes de si.

[12] Reconheço que a maioria dos filhos nascidos fora do casamento pertence a casais em regime de coabitação, tal como reconheço, de uma maneira geral, o aumento da prevalência (Ermisch e Francesconi, 2000; Lewis, 2001) e da aceitação social da coabitação entre casais heterossexuais (Barlow, Duncan, James e Park, 2000). Isso em nada retira força ao argumento da perda de centralidade, em primeiro lugar, do casal heterossexual unido pelo casamento, e em segundo lugar, do casal heterossexual per se.

[13] O projecto, coordenado por Sasha Roseneil, contou também com os investigadores Shelley Budgeon e Jacqui Gabb. Para uma reflexão mais pormenorizada da metodologia seguida e dos resultados, ver Roseneil e Budgeon, 2004. Para mais trabalhos relativos aos temas da intimidade e do desvelo para lá da família convencional, ver os contributos incluídos em Budgeon e Roseneil, 2004.

[14] Registam-se, aqui, semelhanças com o trabalho clássico de Stack (1974) sobre a importância da amizade nas estratégias de sobrevivência de uma comunidade negra.

[15] Sobre a ascensão do modelo do companionate marriage como ideal dominante durante o período do pós-guerra, ver Finch e Mansfield, 1991. Para uma análise mais aprofundada da não-coabitação por parte dos entrevistados, ver Roseneil, 2006.

[16] Urry (2000) oferece uma poderosa explanação do valor das metáforas da mobilidade e do fluxo para a compreensão do mundo social contemporâneo.

 

 

Published 29 May 2007
Original in English
First published by Revista Crítica de Ciências Sociais 76 (2006)

© Sasha Roseneil / Revista Crítica de Ciências Sociais / Eurozine

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