Heróis, lideres, demagogos

Algumas reflexões pouco heróicas sobre heróis. Os heróis são invariavelmente figuras maiores que a vida, próximas da ficção. No entanto, a maior parte das vezes, cada um de nós escolhe o herói que lhe permite ser um pouco mais parecido com a pessoa imperfeita que é.

Infeliz da terra que tem necessidade de heróis.
Galileu, em Vida de Galileu, de Brecht

Aversão ao tema

Como disse certa vez a poeta americana Marianne Moore acerca da poesia, “Também não gosto.” Pelos vistos, Brecht também não gostava. E eu também não posso dizer que seja louco pelo tema.

Para qualquer pessoa que se agarre à crença na ideia frágil e imperfeita que está no centro da democracia – que podemos confiar razoavelmente num grupo de nossos “pares” para tomar decisões que promoverão o interesse da sociedade em geral – o conceito de herói causará arrepios. Sabe a sistemas sociais hierárquicos antigos; cheira a sangue e tripas, em vez de compromisso pacífico; reduz o sentido do seu próprio valor do cidadão democrático, em favor de um ser vago e abstracto que é, por definição, superior. “Não gosto de heróis”, murmura para os seus botões o cidadão democrático. “Serei o meu próprio herói”.

No entanto, quer isso nos agrade ou não, acreditamos em heróis desde o dia em que nascemos: os pais irreais, um professor benevolente, uma personagem numa canção ou num livro infantil, uma estrela do desporto – todos figuras mais ou menos remotas, que cederão lugar ao mais alto, mais bonito, mais competente e socialmente mais talentoso dos companheiros de escola. (E isto nem inclui os super-heróis insuflados dos desenhos animados e da televisão, que amortecem a dor genuína da admiração, e que nos projectam num mundo de fantasia solipsística.) Embora por vezes a inveja gerada pela adoração de heróis da infância seja quase insuportável, se não se acaba paralisado, aprende-se com eles, experimentando-lhes a pele, para ver que partes servem, e que partes não prestam.

Existe uma diferença qualitativa – esperamos – entre os heróis da infância e os heróis da idade adulta, que confere algum crédito ao cliché segundo o qual a idade traz a sabedoria. À medida que vamos envelhecendo, deixamos de admirar simplesmente o poder, a riqueza, a beleza e a força. Se, digamos que por volta dos 25 anos, atingimos um bom nível de auto-estima, a natureza dos nossos heróis muda. Da mesma forma que descobrimos que a vida nos obriga a lutar pela concretização dos nossos desejos, e que grande parte dessa luta passa pela descoberta de um equilíbrio entre fazer aquilo que nos apetece e o que somos obrigados a fazer para sobreviver, também os nossos heróis adquirem uma forma mais modalizada, talvez mesmo mais humilde. Começamos a admirar qualidades como a coragem, a integridade, o idealismo e, principalmente, a persistência, a capacidade para preservar em situações adversas. Os nossos heróis ficam assim mais parecidos connosco.

Tudo isto é, no entanto, sobre heróis pessoais; não remete para o aviso de Brecht. Todos sabemos a que tipos Brecht se referia quando pôs estas palavras na voz do seu protagonista e, tal como ele, sabemos bem que devemos abordar a questão dos heróis nacionais com todas as cautelas. Porém, quando olhamos para a situação política presente, o que vemos é muito diferente daquilo que ele via. Em vez de termos os líderes poderosos e selvagens, do tipo que o preocupava a ele, somos, na maior parte dos casos, liderados por Zés-Ninguém, figuras que são mais ou menos competentes a gerir o governo, a brincar à política ou a agitar a turba, mas às quais falta o que se costumava chamar visão. A nossa capacidade técnica para colocar a cara de alguém em milhões de t-shirts não produziu nenhum herói novo: nem George W. Bush nem Osama Bin Laden atingiram o estatuto de um Che.

Na verdade, a questão dos heróis nacionais pode ser bem diferente daquela implicitamente colocada por Brecht. Dada a complexidade bizantina das instituições democráticas actuais, será possível – e esqueçamos o desejável – encontrar líderes que sejam mais do que comandantes embriagados de transatlânticos à deriva? Poderão existir heróis nacionais, num tempo em que os navios do Estado – ou, mais exactamente, o ídolo do capitalismo internacional – não são controlados por ninguém?

O herói como mito e mau dançarino

Neste ponto poderá ser-nos útil tentar distinguir heróis de líderes. (É uma distinção particularmente necessária em língua alemã, dadas as conotações pesadas da palavra “Führer.”)

Se procurarmos um padrão para o comportamento heróico, veremos que os heróis são figuras solitárias que enfrentam uma série de provas simples e complexas. No decurso destas provas, chegam à conclusão de que têm um dom particular ou uma mensagem a transmitir, e passam o resto das suas vidas a lutar para convencer os outros da justiça da sua causa. Em geral, os heróis estão mais à vontade no mundo do mito do que no mundo da “realidade”. Quando ultrapassam os seus limites e se tornam homens de estado, como Nelson Mandela ou Vaclav Havel, podem encontrar problemas inesperados. Ocasionalmente um líder – Lincoln talvez seja o melhor exemplo – confronta-se com uma série de provas que o transformam num herói involuntário, que o arrancam a um mundo relativamente seguro e o lançam num mundo de grande solidão e poder, mas o herói/líder é um caso muito raro. A maior parte dos heróis não é bom líder – pelo menos a longo prazo – e a maior parte dos líderes nem chega perto de se tornar um herói. Num certo sentido, é mais fácil falar de heróis do que de líderes, porque os heróis são geralmente permutáveis, enquanto ser ou não ser um bom líder depende de quem se lidera, e em que circunstâncias.

No clássico The Hero with a Thousand Faces (1953) o mitologista Joseph Campbell divide a demanda do herói em diversas fases. De acordo com Campbell, o herói inicialmente resiste à sua “chamada”, é persuadido pelas diferentes figuras de guardiães das passagens a entrar num mundo de escuridão e perigo, luta com deuses e deusas malévolos, até que absorve o seu poder e vê os seus lados mais benévolos. Ao enfrentar o perigo frontalmente, a psique do herói liberta-se dos medos e das dependências da infância, e ele emerge como um adulto, com sentido de missão. Mas a sua prova não terminou. Armado com uma recém-encontrada auto-confiança, é-lhe exigido que regresse a um mundo que lhe é ou indiferente ou hostil, ou então descobre que a bênção da sua revelação tornou o mundo “real” pouco atraente. Se consegue ultrapassar a depressão ou sentido de rejeição, tem o poder de fazer passar a sua mensagem a uma sociedade que a pode utilizar para recuperar um sentido de renovação e rumo.

Mesmo sendo demasiado esquemático, este paradigma ajuda-nos a ver as relações entre os heróis clássicos – os Cristos, os Moisés, os Budas, os Ulisses. Parece-me que Campbell e os seus colegas junguianos argumentam de forma convincente que o padrão é arquetípico; demonstram que, se nem toda a gente vive uma vida na qual sente ter um destino mais elevado, cada um de nós o sente ocasionalmente, e esforça-se, ainda que inconscientemente, para atingir os parâmetros desse destino.

Apesar de todo o seu entusiasmo com a mitologia, Campbell revela algum desalento perante a sua pouca importância para a vida contemporânea:

Hoje em dia, todos estes mistérios perderam o seu poder; os seus símbolos já não interessam à nossa psique. A ideia de uma lei cósmica, que toda a existência serve e à qual todo o homem deve obedecer, já há muito que passou pelos estádios místicos preliminares representados na astrologia antiga, e é agora aceite naturalmente em termos mecânicos. A descida das ciências ocidentais dos céus à terra (da astrologia do século XVII à biologia do século XIX), e a sua convergência hoje, por fim, no próprio homem (na antropologia e psicologia do século XX) assinalam o caminho de uma transferência prodigiosa do ponto de enfoque da curiosidade humana. Agora, o mistério crucial já não é o mundo animal, nem o mundo das plantas, nem o milagre das esferas, mas o próprio homem. O homem é a presença alienígena com as quais as forças do egoísmo têm de chegar a acordo, através do qual o ego tem de ser crucificado e ressuscitado, e em cuja imagem a sociedade será reformada.

Se considerarmos encarnações um pouco mais recentes de heróis e anti-heróis – estou a pensar em Dom Quixote e em Assim Falou Zaratustra – o pessimismo contido de Campbell parece convincente. Junto dos mitos corpulentos dos heróis antigos, estas figuras anémicas mostram-nos os obstáculos que um autor tem de transpor na tentativa de renovação do conceito de herói. Dom Quixote e Zaratustra poderiam parecer muito pouco heróicos a Homero ou aos autores dos Evangelhos, e não os poderíamos culpar se não reconhecessem semelhanças entre os seus ícones e os seus sucedâneos modernos.

O próprio Cervantes tem sido fustigado pelos críticos literários por ser demasiado duro com o seu “herói.” Num ensaio de 1998 no New York Review of Books, o escritor belga Simon Leys descreveu a tentativa de Cervantes como a escrita de um à custa da destruição das novelas de Cavalaria, populares no seu tempo, e críticos vários, de Montherlant a Unamuno e a Nabokov, atacaram-no por se deter no ridículo de Quixote a expensas da sua humanidade. Se Quixote não fosse amável, como poderíamos explicar a persistência do encanto do livro que é, na verdade, apenas uma infindável série de variações sobre o tema da tolice de Quixote?

Parece-me que a persistência da atracção por Don Quixote se deve, em parte, ao valor da “sinceridade” que os nossos tempos acrescentaram ao heróico. Por muito “iludido” que seja Quixote – e podemos argumentar que Cervantes, no fundo, acaba por provar aquilo que se propõe desmentir, justamente que a Cavalaria existe – Don Quixote, para além de acreditar nos princípios que apregoa, age segundo esses mesmos princípios. Não julgamos o Bom Don pelo sucesso, mas pela sinceridade dos seus esforços; e pode justamente ser a futilidade dos seus gestos – lembremos a frase de Beckett: “Não me interessa o sucesso. Apenas me interessa o fracasso.” – que faz com que o amemos e nos identifiquemos com ele.

Isto sugere uma outra vertente do herói que se tornou mais óbvia nos tempos modernos, quando a nossa atitude para com a força e o poder mudou, e muitos de nós consideram maus por natureza esses atributos. Leys classifica Quixote como um “falhado”, dizendo que “o homem de sucesso adapta-se ao mundo. O falhado persiste em tentar que o mundo se adapte a ele. Por isso, todo o progresso depende do falhado.” Se nos lembrarmos de Cristo na cruz, da solidão de Buda, ou das muitas vezes que Ulisses escapa à morte certa, apenas pelo capricho de um deus ou deusa entediados, é evidente que a vertente de “falhado” explica uma grande parte do seu encanto, e que, no nosso meio dominado pela ideia de sucesso, a originalidade e a lucidez podem ser ainda mais impopulares do que eram na Caverna de Platão.

Mas que fazer do saco de vento fanfarrão da marioneta com o nome estranho de Zaratustra, cujo criador bonecreiro, atormentado por maleitas físicas e uma timidez atroz, muito dificilmente será o modelo de um fazedor de heróis de quem quer que seja?

Em primeiro lugar, a obra-prima de Nietzsche mostra-nos como a nossa capacidade para imaginar heróis empobreceu. Embora Nietzsche tente investir a sua “história” com alguns dos adereços do mito (o ancião que inicia Zaratustra nos Mistérios, os animais que o rodeiam e apoiam, o período de isolamento e o desejo de regressar ao mundo, o seu sentido de um “destino mais alto”), enquanto ficção, o livro é ruidoso como uma velha armadura, e algumas das suas afirmações mais incisivas são lidas hoje como alguma da pior psicologia em versão popular. Ao ler o parágrafo que se segue, quem poderá evitar imaginar um bando de americanos privilegiados dos anos sessenta, aos saltos em volta de uma fogueira em Esalen?

Zaratustra, o dançarino, Zaratustra o ligeiro, batendo as asas, pronto para o voo, acenando aos pássaros, preparado e capaz, de uma volubilidade feliz, eu, Zaratustra o profeta, Zaratustra o do riso profético, nem impaciente nem intransigente, aquele que gosta dos saltos para cima e para o lado: eu próprio poisei sobre a minha cabeça esta coroa! (Parte IV, 18)

E, no entanto, Zaratustra comove-nos tanto quanto Quixote, porque, parece-me, a vontade do autor por detrás da sua personagem é muito palpável. Se Don Quixote transpira sinceridade enquanto o seu criador transpira ironia, o oposto acontece em Zaratustra. Enquanto Zaratustra fala muitas vezes num modo que poderíamos classificar de quase irónico – “O homem deve tornar-se melhor e pior, esta é a minha doutrina … Pode ter sido um bem para aquele pregador dos humildes sofrer e tentar arcar com o pecado do homem. Mas eu alegro-me com o grande pecado, é a minha consolação.” (IV, 5) – não existe ironia alguma na voz de Zaratustra.

Nietzsche vocifera contra a religião organizada, a razão, tudo aquilo que considera estar no caminho de uma existência mais impulsiva e livre – se não para toda a gente, pelo menos para ele e para uns quantos amigos escolhidos. Sentimos-lhe a raiva, e sentimos a sinceridade: ambas são tão intensas que se tornam inspiradoras. Este homem, com todas as suas maleitas físicas ou psicossomáticas, os períodos longos de isolamento, as suas lutas com figuras femininas tentadoras e perigosas a que Campbell poderia chamar “feiticeiras” e, acima de tudo, a audácia da sua convicção, tem, na verdade, os traços distintivos do herói clássico. É duvidoso que Nietzsche quisesse ser visto como herói; mais provavelmente, ele teria visto a sua transformação em ídolo como a adoração de mais um Deus falso, e teria derrubado a sua própria estátua. Parece que nos tempos modernos e pós-modernos, se já não conseguimos inventar mitos heróicos, alguns de nós podem ainda viver vidas heróicas.

À procura de um bom líder: um olhar sobre Vidas de Plutarco

Para além de qualquer outra coisa que possa ser, o herói parece ser “aquele que pensa pela própria cabeça”. Este paradigma emergiu provavelmente numa altura em que a sociedade passou a ser constituída por mais do que uma pessoa, e tem persistido como um ideal até no mais vulgar dos slogans de publicidade contemporânea americana, como “thinking outside the box”, “marching to the beat of a different drummer”, etc., etc., . É notável como cada era encontra a sua forma de expressar o anseio pelo heroísmo, e que este permanece tão raro como sempre.

Isto deve-se, em parte, ao sofrimento que acompanha a demanda heróica. A maior parte de nós intui isto muito cedo, seja no incómodo e no tormento das aulas de violino, seja no medo em contrariar os desejos dos pais para dar continuidade ao negócio da família e, em vez disso, tornar-se actor ou cantor de hip-hop. É compreensível que prefiramos agradar e continuar sossegados, em vez de sofrer pelos nossos ideais, e que, muitos de nós, tendo uma vocação – o desejo heróico de fazer qualquer coisa com paixão – seja vencido até que atrofia ou morre. Outros, substituem ideias convencionais de ambição e sucesso pela dor da solidão heróica, e tendem a olhar com suspeita e desprezo aqueles que entre nós se assemelham a heróis. Não é fácil ser herói: por muito que os idealizemos nas histórias, nunca nos sentimos confortáveis quando os temos por vizinhos.

Porém, continuamos com a questão mais imediata da distinção entre bons e maus líderes por resolver, bem como se será que tem alguma coisa a ver com heróis. Pensei que fosse útil dar uma vista de olhos por um dos grandes estudiosos dos líderes da história, Plutarco, particularmente a sua Vida dos Gregos. (Embora tenha feito corresponder às suas biografias gregas algumas romanas, parece-me que o coração de Plutarco estava mais com os seus compatriotas – o latim dele parece que nem sequer era fluente – e é muito mais desenvolto e perspicaz sobre os gregos, hedonistas e voláteis, do que sobre os romanos pesadões.)

Esquecemos quanto das Vidas de Plutarco é sobre o poder, o sangue, as lutas e a guerra. ( Claro que, como já vimos, um herói também luta, mas as suas lutas são idiossincráticas, e as derrotas podem ser tão admiráveis como as vitórias.) Mas para o bom líder, na avaliação de Plutarco ou de outra pessoa qualquer, a vitória é necessária, e assim uma grande parte das Vidas é dedicada à estratégia militar, à intriga, à preparação para a batalha, à coragem pessoal e à procura do equilíbrio exacto entre a inspiração da lealdade nas próprias tropas e o apaziguamento da polis.

Mas se lermos as Vidas com algum cuidado, descobre-se que as pessoas que Plutarco mais admirava mais – pessoas como Licurgo, Sólon, Cimon, Péricles – são não apenas generais vitoriosos, mas ainda todos eles caracterizados pelo auto-controle e a contenção – a virtude cardeal da filosofia grega. Sólon merece o elogio de Plutarco quando, enquanto o primeiro grande líder de Atenas, resiste a tornar-se déspota, tendo supostamente dito aos amigos que “enquanto a tirania pode ser um momento delicioso, não há dela regresso” (Sólon, 14). Cimon é elogiado pela sua calma, e a atmosfera de urbanidade cortês entre ele e Péricles “mostrava justamente como, nesse tempo, as discussões eram conduzidas com civilidade, as emoções eram moderadas, e as pessoas não tinham dificuldade em controlá-las quando estava em causa o bem da comunidade; até a ambição, que é a emoção humana mais poderosa e indomável, estava então subordinada às necessidades humanas”. (Cimon, 17) A aparência de Péricles reflecte uma compostura perfeita:

… a tranquilidade das suas feições que nunca se distorciam em risota, o seu passo controlado, a maneira como as suas roupas estavam arranjadas de forma a não se descomporem pela emoção enquanto falava, o calmo tom da sua voz, tudo isto produzia uma impressão notável em toda a gente. (Péricles, 5)

É claro que a principal razão para Plutarco admirar a contenção é o facto de ele e os seus compatriotas se preocuparem com a possibilidade de os seus líderes se tornarem demasiado poderosos; sabiam muito bem com que facilidade a democracia podia resvalar para o despotismo. Um dos pormenores mais notáveis da vida política grega que emerge da leitura das Vidas é a quantidade de vezes que um líder é enviado para o exílio por se ter tornado demasiado popular, apenas para ser chamado de volta em altura de crise.

No entanto, por muito que Plutarco admirasse a contenção, tal como Cervantes ou qualquer outro bom escritor, também ele por vezes transmite o oposto do que se propunha. Por muito admiráveis que a consciência e a paciência sejam em teoria, Plutarco nunca consegue transformá-las em algo mais que medianamente interessante. Os dois líderes que se destacam das suas biografias são justamente os mais controversos, Alcibíades e Alexandre. Lembremos que Alcíbiades era o desordeiro garboso com o qual Sócrates brinca em Symposium, que desfigurou as hermas na Ágora de Atenas, instigou a campanha desastrosa na Sicília e mudou de lealdade a Atenas e a Esparta com a frequência com que um jogador de ténis troca de t-shirt; e Alexandre era o jovem conquistador que morreu aos trinta e dois anos, tendo trazido aos Macedónios a glória, mas também o despotismo e o caos.

O facto de estas figuras serem mais atraentes do que as outras leva-nos a um problema que conhecemos da vida pessoal, mas que não costumamos aplicar à questão mais lata da democracia: mais exactamente, que aquilo de que precisamos e aquilo que queremos podem ser coisas diversas. Quem discordará que virtudes como a generosidade (), a filantropia (), o brio () e a moderação () – qualidades que, como Plilip Stadter nos diz na edição da Oxford de Plutarco, se encontram em centenas de inscrições em sítios públicos da Roma e da Grécia Antigas – são exactamente as que cada sociedade valorizará nos seus líderes? Dada a natureza burocrática do governo, podemos precisar destas virtudes modestas e acessíveis, muito mais do que das virtudes heróicas, e os nossos melhores líderes, pelo menos em tempos de paz, poderão ser simplesmente aqueles que percebem a máquina burocrática e a administram com compaixão e inteligência.

No entanto, o que queremos – e, certamente, em tempos de crise precisamos – pode muito bem estar mais próximo de um Alexandre ou de um Alcibíades, mais do que de um Sólon ou de um Péricles. Tipos carismáticos próximos do déspota. Napoleão. Bolívar. Roosevelt. Castro. Homens cheios de um sentido de auto-importância gigantesco, e mesmo megalomania, mas também de uma energia sem limites. Homens (e, no futuro, também mulheres) que criem grandes sistemas que apenas funcionem bem sob a sua liderança e que tombem quando desaparecerem, mas que façam com que a história avance alguns passos. Em resumo, pessoas com uma visão histórica – mas que também ameaçam o controle e o equilíbrio da democracia. O que nos leva de novo a Campbell, pelo menos àquela vertente do herói que sabe algo que mais ninguém sabe, e que insiste em vendê-lo ao resto do mundo.

Na prática, parece não haver uma linha clara que separe os heróis dos demagogos, e isto coloca-nos problemas. Queremos realmente demagogos para líderes? Infelizmente, gostemos ou não, parece que neste momento da história, caminhamos nesse sentido neste momento. Le Pen, Haider, Bin Laden, as forças que se agrupam em torno de George Bush – todos sugerem uma diminuição da participação democrática e um anseio por déspotas por parte de segmentos significativos da população.

Sem dúvida que isto resulta de uma sensação de instabilidade e de precariedade disseminadas, pelo mundo. Os nossos sistemas económico e político parecem estar gastos, e talvez mesmo corroídos por falhas orgânicas. Não estão apenas ameaçados a partir de dentro, também nos sentimos ameaçados por um inimigo vago mas palpável – pessoas a Oriente, que têm sido abandonadas por nós e exploradas pelos seus líderes e que se estão aglomerando junto aos nossos portões. Ninguém sabe exactamente quem nos devia liderar. Não haverá ninguém que nos diga o que fazer?

Pode muito bem ser que, a curto prazo, o melhor que podemos esperar num líder é que ele seja uma figura de compromisso, alguém entre um gestor corporativo e um déspota – um tirano com compaixão, o visionário que é também um rapaz simpático. Ocorre-me de novo Lincoln: aparentemente um homem amável e divertido, com uma vida privada trágica, durante a guerra descobriu fontes interiores de vigor, e uma capacidade para planear estratégias militares bem superior à dos seus generais titubeantes.

Em tempos mais recentes, para alguma inspiração e alguma esperança, podemos olhar para Martin Luther King e Nelson Mandela. Muito mais heróis do que líderes, chegam perto de combinar o sofrimento e a visão do herói de Campbell com a contenção e a auto-consciência dos líderes de Plutarco. As suas histórias já são uma combinação de facto e lenda: os longos períodos na prisão, a capacidade para transformar a visão pessoal em visão universal, a notável mistura de compromisso e recusa do compromisso. O lugar de encontro entre Aquiles e Maquiavel – estas qualidades, entre outras, fazem deles acidentes divinos, produtos dos momentos raros quando uma causa justa encontra o seu paladino. Não exactamente heróis, nem exactamente santos, enquanto líderes (no caso de Mandela, pelo menos) apenas adequados, pensando bem talvez não sejam ideais para ser admirados e imitados, mas mais para serem colocados em selos – exemplos da capacidade humana para, ocasionalmente, fazer alguma coisa bem feita.

O herói do quotidiano: uma memória pessoal

Se os heróis tais como Campbell os descreve estão praticamente extintos, e as sociedades modernas não conseguem descortinar quem querem para as liderar, quem poderemos admirar para além do “CEOs” e de jogadores de basquetebol com salários obscenos, ou estrelas de cinema com menos de 1% de tecido adiposo?

Suspeito que a certa altura a resposta se encontra nos heróis quotidianos – pessoas a quem nós, enquanto indivíduos, precisamos e queremos admirar.

Há alguns anos, durante uma sessão de psicanálise particularmente marcada pela auto-comiseração, o meu terapeuta perguntou-me quem é que eu mais admirava. Deu-me alguns minutos e acrescentou: “Aposto que essa pessoa não nasceu em berço de oiro. Aposto que teve de lutar e ultrapassar tempos difíceis para se tornar na pessoa que você admira.”

Tratava-se de Seymour Krim! E eu nem suspeitava que era a pessoa que eu mais admirava. Conhecia-lhe os lados maus – a língua afiada, o traço misógino – como poderia ele ser o meu herói? Mas o meu Inconsciente tinha falado, e eu tinha de o escutar.

Pode dar-se o caso de nunca terem ouvido falar do escritor nova-iorquino Seymour Krim. Dez anos após a sua morte está praticamente esquecido, e mesmo durante a sua vida o trabalho dele manteve-se numa relativa obscuridade, à sombra de contemporâneos mais famosos como Norman Mailer ou Tom Wolfe. No entanto, pode argumentar-se com justeza que Krim foi o pai do “Novo Jornalismo” (aquilo que hoje em dia os departamentos de Inglês chamam “Escrita não-ficcional criativa), e que a sua visão da Nova Iorque de meados do século é autêntica e duradoura.

Conheci-o – não, já o conhecia antes de o conhecer, conhecia-o mesmo antes de o ter lido. Conheci-o no momento em que vi a capa do seu livro de 1961, Views of a Nearsighted Cannoneer – um título estranhíssimo, acoplado a uma foto igualmente estranha de um homem jovem, de caracóis e óculos, agachado atrás de um canhão velho; ao longo da capa, na vertical, encontrava-se uma lista dos tópicos mais quentes da época: Sexo, Suicídio, Homossexualidade, Escrita desportiva, Jazz, Negros, Génio, Insanidade, Nova Iorque: o sub-mundo literário. Quem poderia resistir ao tom confessional e modernaço logo na primeira página?

Deixem-me dizer desde já que o meu ponto de vista evoluíu desde que estes ensaios foram escritos, que hoje não poderia escrevê-los da mesma forma, e que penso que os golpes de verdade são por vezes enfraquecidos, de forma subtil ou óbvia, pela frustração pessoal, pelo exagero, pela auto-defesa – pela fanática fome de ego do homem que eu era então. Não posso corrigir estes defeitos. Estou orgulhoso de ter feito o que podia. Mas tenho fé que isto é apenas o princípio de uma postura.

O que se seguia era uma mistura de observação lúcida e de prosa energética, por um jovem que queria ter sucesso com as mulheres e como escritor, mas que teve de lutar contra a timidez, a depressão, e uma estadia num hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio, para se tornar num pouco daquilo que queria ser. Alguns dos ensaios autobiográficos estão escritos num jargão semi- (Krim editou a primeira antologia de escrita ) que estava condenada a tornar-se datada; mas sob a escrita elaborada estava uma sinceridade tão crua quanto alguma vez encontrei. Ao ler alguns parágrafos de Krim pareceu-me então possível que também eu me tornasse escritor.

Conheci-o pessoalmente alguns anos mais tarde, passei alguns serões no estúdio minúsculo da Rua East 10 (uma vez mostrou-me com orgulho um pedaço gasto de tapete onde uma Elizabeth Taylor jovem um dia se sentara), e muito mais tarde vi-o suportar, sem auto-comiseração, o início de uma doença do coração que havia de o impossibilitar de continuar a escrever. Embora tenha publicado relativamente pouca coisa em vida, vivia para escrever – teve uma série de namoradas, nunca casou, era a pessoa mais mal vestida do mundo: em resumo, a imagem perfeita do Boémio – e assim, quando perdeu a capacidade para escrever, contou a alguns amigos próximos o seu plano, tomou comprimidos para dormir e deixou-nos. Na cerimónia em sua memória deviam estar umas 300 pessoas. Todos quantos falaram disseram o mesmo: quando estavam com ele, sentiam que ele lhes falava directamente, intimamente, exclusivamente para eles. Tinha na vida o mesmo dom que tinha na escrita – fazer-nos sentir que estava a falar do coração.

Quero contar uma história sobre Krim que é, no fundo, uma história sobre histórias, a única forma que temos de conhecer os nossos heróis. Algures no início da década de 80, Krim disse-me que estava com problemas em decidir que tipo de óculos usar. Reconhecia que era o sintoma de uma doença profunda que ele não conseguia reconhecer. Como eu fizera uma observação arrogante sobre o facto de estar a fazer psicanálise há tanto tempo que faria um bom analista, olhou-me fixamente com um olhar directo, vagamente malandro, os lábios franzidos num sorriso nervoso, e perguntou-me se aceitava ser o analista dele. Era vinte anos mais velho, estava na verdade a convidar-me para ser Aprendiz de Feiticeiro.

Quando contei isto ao meu analista, ele perdeu a cabeça: “O quê? Você está louco?!”

Mas às vezes há que ser louco para ser herói.

O Krim e eu encontrávamo-nos uma vez por semana. Fui suficientemente sensato para estabelecer um acordo com ele que estipulava que, se ao fim de seis semanas, um de nós quisesse acabar com aquilo, o faríamos, sem problemas. Em vez de me pagar, ele colocava de lado todas as semanas uma certa quantia de dinheiro, para um amigo escritor pobre. Encontrávamo-nos no meu apartamento ou no dele, e seguíamos todas as regras da terapia, quero dizer, tal como eu as conhecia. Não revelou grandes segredos: isso pelo menos posso dizer. Em todos os aspectos estava em muito melhor forma do que eu, o que não quer dizer que eu não o pudesse ajudar. E desde o início que sentiu que eu estava a ajudá-lo, e estava satisfeito e grato de uma forma comovente. Mas eu estava aterrado. Não queria a responsabilidade da vida deste homem nas minhas mãos. Adivinhava o suficiente sobre o conceito de “transferência” para saber que tinha de encorajá-lo a zangar-se comigo, e não queria fazê-lo: queria o meu mentor de volta, ainda queria ser discípulo dele. Ao fim das seis semanas, pus fim à situação. Durante algum tempo ele esteve magoado e zangado, e não me falava. Mas com o passar dos anos fomos construindo uma nova relação, mais igualitária do que a antiga.

Hoje é-me fácil perceber porque é que Krim era o meu herói. De muitas formas, ele encaixa-se no molde heróico: o isolamento, o sofrimento, a convicção de que ouvir a sua voz pessoal e usá-la honestamente era o sentido da vida. Mas o meu papel nesta história é menos claro. Porque fiz eu uma coisa tão tola?

Ocorre-me a hipótese de que podia estar a fazer o que Campbell denomina “reconciliação com o Pai”. De acordo com Campbell, no estágio mais negro da vida do herói, ele confronta-se com toda a masculinidade do pai edipiano. Na mitologia, isto pode tomar a forma de monstros, dragões, qualquer coisa que o herói duvide que possa superar. Em vez de usar a força bruta, é requerido do herói que “abandone a ligação ao próprio ego, e é isso que é difícil. Tem de acreditar que o pai é misericordioso, e de ter confiança nessa misericórdia.”

Estranhamente, parece-me que era justamente isso que eu estava a fazer: a lutar com o pai assustador, e a submeter-me a ele.

Lembro-me bem de estar sentado a ouvi-lo, simultaneamente assustado e entusiasmado, como se estivesse a olhar o perigo nos olhos. A cada sessão fui ficando um pouco mais seguro, até que, por fim estava suficientemente descontraído para perceber que ele, como qualquer um de nós, era apenas uma pessoa vulnerável a fazer o seu melhor. Isto não me fez respeitá-lo menos, mas tornou-o mais acessível e talvez menos colossal. Talvez no fim eu já pudesse dar-me ao luxo de ser também misericordioso, quando admiti não ser a pessoa certa para o ajudar – não porque fosse incompetente, mas porque estava a brincar com o fogo.

É possível que me tenha enganado, que estivesse a comportar-me como um rapazinho atrevido. Mas acabei por sentir que, por causa dessas seis “sessões”, tinha absorvido um pouco de Krim. A longo prazo, pode muito bem ser que os heróis sejam afinal figuras na nossa vida, ou da nossa imaginação, que fazem com que cada um de nós possa ficar mais perto de se tornar um herói.

Published 1 February 2003
Original in English
Translated by Adriana Bebiano

Contributed by ZonaNon © Wespennest Eurozine

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