Sumários Revista Crítica 80 (2008)

Boaventura de Sousa Santos
A filosofia à venda, a douta ignorância e a aposta de Pascal

A “epistemologia do Sul” que tenho vindo a propor visa a recuperação dos saberes e práticas dos grupos sociais que, por via do capitalismo e do colonialismo, foram histórica e sociologicamente postos na posição de serem tão só objecto ou matéria-prima dos saberes dominantes, considerados os únicos válidos. Os conceitos centrais da epistemologia do Sul são a sociologia das ausências, a sociologia das emergências, a ecologia de saberes, e a tradução intercultural. Não se trata verdadeiramente de uma epistemologia, mas antes de um conjunto de epistemologias. Ao contrário das epistemologias do Norte, as epistemologias do Sul procuram incluir o máximo das experiências de conhecimentos do mundo. Nelas cabem, assim, depois de reconfiguradas, as experiências de conhecimento do Norte. Abrem-se pontes insuspeitadas de intercomunicação, nomeadamente com as tradições ocidentais que foram marginalizadas, desacreditadas ou esquecidas pelo que no século XIX passou a vigorar como o cânone da ciência moderna.

João Arriscado Nunes
O resgate da epistemologia

Ao longo das três últimas décadas, o projecto da epistemologia passou por um processo de crítica e de transformação, marcado, sucessivamente, pela transferência da soberania epistémica para o “social”, pela redescoberta da ontologia e pela atenção à normatividade constitutiva e às implicações políticas do conhecimento, chegando mesmo a ser postulado o abandono da epistemologia como projecto filosófico. Em contraponto a esse processo, foi ganhando contornos a proposta de uma outra epistemologia radicada nas experiências do Sul global.

Procura-se neste artigo explorar as possibilidades de criação de um espaço de diálogo entre a crítica (“naturalista”, feminista, pós-colonial, epistemográfica, epistópica…) da epistemologia como projecto filosófico e a proposta de uma epistemologia do Sul formulada por Boaventura de Sousa Santos, a partir de uma revisitação do pragmatismo filosófico enquanto forma mais radical de crítica da epistemologia convencional.

Nelson Maldonado Torres
A topologia do Ser e a geopolítica do conhecimento: Modernidade, império e colonialidade

O ensaio examina a articulação entre raça e espaço na obra de vários pensadores europeus. Centrando-se no projecto de Martin Heidegger de procurar no Ocidente as raízes, denuncia a cumplicidade desse projecto com uma visão cartográfica imperial que cria e separa as cidades dos deuses e as cidades dos danados. O autor identifica concepções análogas noutros pensadores ocidentais, sobretudo em Levinas, Negri, Zizeck, Habermas e Derrida. Ao projecto da busca das raízes, com os seus pressupostos racistas, ele opõe uma visão crítica, inspirada em Fanon, que sublinha o carácter constitutivo da colonialidade e da danação para o projecto da modernidade europeia. O autor conclui com um apelo a uma diversalidade radical e uma geopolítica do conhecimento descolonial.

Ramón Grosfoguel
Para descolonizar os estudos de economia política e os estudos pós-coloniais: Transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global

Discutem-se as implicações epistemológicas da viragem descolonial para a descolonização do conceito de “capitalismo global”, tal como tem sido usado nos paradigmas da economia política e dos estudos culturais. Entre outros termos discutidos no artigo, incluem-se “colonização do poder”, “epistemologias de fronteira” e “transmodernidade”, para começar a pensar, não de acordo com “novas utopias”, mas antes com “outras utopias” baseadas numa cartografia diferente das relações de poder globais no âmbito do “sistema mundo europeu/euro-norte-americano moderno/capitalista colonial/patriarcal”. O artigo defende a necessidade de usar este último conceito (apesar da sua extensão) e de abandonar a categoria de “sistema-mundo capitalista” ou “capitalismo global”.

Paulin J. Hountondji
Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos

Em que medida são africanos os chamados Estudos Africanos? O estudo da África, tal como desenvolvido até hoje por uma longa tradição intelectual, faz parte de um projecto abrangente de acumulação do conhecimento iniciado e controlado pelo Ocidente. Este artigo defende que as sociedades africanas devem eles próprias apropriar-se activa, lúcida e responsavelmente do conhecimento sobre elas capitalizado durante séculos. Defende, mais genericamente, o desenvolvimento em África de uma tradição autónoma, confiante em si própria, de investigação e conhecimento que responda a problemas e questões suscitados directa ou indirectamente por africanos. Convida os investigadores africanos da área dos Estudos Africanos e de todas as outras disciplinas a compreenderam que, até ao momento, têm vindo a levar a cabo um tipo de pesquisa maciçamente extravertido, isto é, orientado para fora, destinado em primeira linha a ir ao encontro das necessidades teóricas e práticas das sociedades do Norte. Propõe uma nova orientação e novas ambições para a investigação feita por africanos em África.

Maria Paula G. Meneses
Corpos de violência, linguagens de resistência: As complexas teias de conhecimentos no Moçambique contemporâneo

O objectivo deste artigo é analisar as raízes profundas e razões válidas para a reconfiguração dos métodos “tradicionais” de resolução de conflitos em Moçambique, através de uma perspectiva de desenvolvimento do Estado, tanto em contextos coloniais como pós-coloniais. Tomando como ponto de partida a constante referência a práticas de feitiçaria, procura-se analisar estas acusações como parte de um contexto cultural mais amplo onde se entrecruzam múltiplas realidades culturais, numa rede complexa de competição pelo poder. Neste contexto, o privilégio epistemológico concedido ao direito moderno continua a funcionar como um instrumento de supressão de outras formas de legalidade e, simultaneamente, dos grupos sociais subalternos cujas práticas sociais se baseavam nessas formas. Deste modo, a análise das acusações de feitiçaria abre campo para uma discussão mais ampla e situada sobre a diversidade das “epistemologias do Sul”.

Liazzat J. K. Bonate
A teoria do “encerramento do Ijtihad” no direito islâmico

O postulado da jurisprudência islâmica clássica sobre o “encerramento dos portões do ijtihad”, ou a teoria da abdicação da aplicação do raciocínio humano para a extrapolação da lei a partir das escrituras sagradas, foi indicado por orientalistas como uma das razões da alegada incapacidade das sociedades islâmicas de acompanhar o desenvolvimento moderno, do qual o Ocidente desfrutava. O fecho do ijtihad pareceu ser a causa plausível da aparente estagnação e da falta de criatividade da jurisprudência muçulmana. Apesar de juristas pré-modernos islâmicos e os orientalistas concordarem sobre o encerramento do ijtihad, este, nos dias que correm, tem sido objecto de estudos mais aprofundados e de discussões acesas entre académicos, sendo opinião comum que nem o exercício nem a teoria da lei islâmica manifestaram alguma vez a ausência do ijtihad ou da criatividade jurídica.

Published 2 July 2008
Original in Portuguese

Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais © Revista Crítica de Ciências Sociais Eurozine

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