Sumários Revista Crítica 79 (2007)

Hermes Augusto Costa
Pedro Araújo
Informação e consulta nas multinacionais: A experiência de representantes portugueses em Conselhos de Empresa Europeus

A partir da experiência de representantes portugueses em Conselhos de Empresa Europeus (CEE), aborda-se a avaliação que aqueles fazem do cumprimento dos dois princípios basilares da directiva: a informação e a consulta. A este propósito, são tidas em conta duas dimensões da vida dos CEE: a dimensão funcional e a dimensão das possibilidades práticas. A primeira reporta-se ao modo como a informação e a consulta se encontram vertidas nos textos dos acordos que ditam o modus operandi dos CEE e ao modo como os representantes dos trabalhadores avaliam a informação que lhes é transmitida. A segunda dimensão encontra-se mais orientada para o princípio da consulta e para as possibilidades de os CEE condicionarem as decisões das multinacionais. Ainda que ambas as dimensões sejam olhadas como pouco entusiasmo pelos representantes portugueses, este texto, apoiando-se no exemplo da GM-Europa, não deixa, todavia, de fazer referência ao papel que os CEE podem desempenhar na construção de uma identidade laboral transnacional.

Sílvia Portugal
O que faz mover as redes sociais?
Uma análise das normas e dos laços

Neste artigo pretende-se discutir as normas que regulam a acção dos laços informais na produção de bem-estar. Mostra-se que a acção das redes sociais obedece aos princípios gerais do sistema de dádiva, revelando-se como a tríplice obrigação “dar, receber, retribuir” estrutura as práticas e representações dos actores. No entanto, expõem-se, igualmente, os problemas decorrentes desses princípios orientadores. Reciprocidade, obrigação, igualdade, autonomia ­ as normas surgem claras, mas a sua análise detalhada desvenda princípios contraditórios, resistências, tensões e conflitos.

Luiz Inácio Gaiger
A outra racionalidade da economia solidária.
Conclusões do primeiro Mapeamento Nacional no Brasil

O artigo examina os resultados empíricos do primeiro levantamento nacional sobre a economia solidária realizado no Brasil, que coletou dados sobre quase 22 mil experiências. Seu objetivo é verificar em que medida esses empreendimentos, por se tratar de organizações fundadas na livre associação de trabalhadores, na cooperação produtiva e em princípios de autogestão, adotam uma racionalidade distinta e contraposta sob certos aspectos à lógica econômica intrínseca à acumulação contínua de capital. A análise centra-se nas relações entre indicadores de solidarismo interno e externo dos empreendimentos e indicadores de eficiência e viabilidade econômica. Como resultado, embora debilidades e limites sejam identificados nessas experiências, é perceptível sua tendência geral a realizarem os seus fins, de preservação da vida em condições dignas, através da participação democrática e da reciprocidade.

Luís Quintais
Fluidez tectónica.
As bio-tecno-ciências, a bio-arte e a paisagem cognitiva do presente

O presente ensaio constitui um comentário crítico à tese de Paul Virilio de que certo tipo de práticas na fronteira entre a arte e a tecno-ciência, práticas a que se convencionou chamar “bio-arte”, epitomizam o radicalismo expressionista e niilista do presente. A investigação aqui iniciada revela, através de um olhar sobre as práticas artísticas de Eduardo Kac, que estas, longe de apelarem a tal radicalismo, só se tornam operativas e significativas numa atmosfera de compromisso ético e político que é tomada como inescapável dada a relevância que assumem as bio tecno-ciências no mundo contemporâneo.

Maria Paula Nascimento Araújo
Myrian Sepúlveda dos Santos
História, memória e esquecimento: Implicações políticas

Pesquisadores têm colocado em questão a recuperação de situações traumáticas como as que ocorreram no Holocausto, no bombardeio a Hiroshima, na guerra do Vietnam ou nos massacres fratricidas da Iugoslávia. Embora algumas contribuições clássicas tenham assinalado aspectos importantes relativos à história e memória, há várias formas de lidar com o passado e todas elas envolvem interesse, poder e exclusões. A política da justa memória a ser realizada sobre crimes cometidos passados, debate que vem sendo travado não só em diversas áreas acadêmicas, como na sociedade em geral, depende de processos seletivos, bem como de elementos que excedem o escopo da razão humana. É preciso encontrar o equilíbrio entre a obsessão pelo passado e as tentativas de imposição do esquecimento. Nosso intuito, portanto, é o expandir o conhecimento sobre história, memória e esquecimento, ressaltando limites, bem como implicações éticas e morais.

Helena Serra
Da construção e reprodução do conhecimento e discurso médicos.
Para uma etnografia da transplantação hepática

Partindo de alguns contributos contemporâneos da área da sociologia médica, apresentam-se alguns resultados de uma investigação de natureza etnográfica numa unidade de transplantação hepática. Elegeu-se uma metodologia qualitativa, tendo como técnica central de recolha de informação a observação participante e continuada e, como técnica complementar, entrevistas semi-estruturadas e aprofundadas, aplicadas às várias categorias representadas no terreno de observação. Começa-se por estabelecer a distinção entre os vários tipos de conhecimento, evidenciando a primazia da experiência clínica em relação ao conhecimento teórico na construção do conhecimento médico; abordam-se ainda os discurso(s) e prática(s) médicas, a propósito da construção do diagnóstico; finalmente, e a encerrar a discussão, é focada a questão da incerteza na construção do conhecimento médico.

Telmo H. Caria
História, reforma e lucidez em ciência: A reflexividade científica segundo Pierre Bourdieu

Desenvolve-se um comentário crítico ao último livro de Pierre Bourdieu (Science de la science et réflexivité) centrado no entendimento deste autor a propósito da prática científica e da razão (social e cognitiva) da sua crença reflexiva na ciência. Faz-se uma descrição comentada da obra por relação ao património de conhecimentos sociológicos sobre ciência. Põe-se em evidência os principais traços e elementos caracterizadores do habitus científico, na concepção racionalista deste autor, e vinca-se os aspectos em que eles se distanciam da cultura das Ciências Sociais em Portugal. Retira-se consequências desta interpretação, referindo um eventual etnocentrismo da epistemologia bourdiana, porque pouco válida para “nos falar” da ciência fora das universidades e fora dos países centrais. Adianta-se uma perspectiva sobre a necessidade de “reformar a cultura do campo” das Ciências Sociais em Portugal.

Published 24 April 2008
Original in Portuguese

Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais © Revista Crítica de Ciências Sociais Eurozine

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