Sumários Revista Crítica 78 (2007)

Boaventura de Sousa Santos
Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes

Na primeira parte do texto, argumenta-se que as linhas cartográficas “abissais” que demarcavam o Velho e o Novo Mundo na era colonial subsistem estruturalmente no pensamento moderno ocidental e permanecem constitutivas das relações políticas e culturais excludentes mantidas no sistema mundial contemporâneo. A injustiça social global estaria, portanto, estritamente associada à injustiça cognitiva global, de modo que a luta por uma justiça social global requer a construção de um pensamento “pós-abissal”, cujos princípios são apresentados na segunda parte do texto como premissas programáticas de uma “ecologia de saberes”.

António Pinho Vargas
A ausência da música portuguesa no contexto europeu: Uma investigação em curso

Procura-se apresentar os pontos de partida teóricos de um projecto de investigação em curso com vista a uma tese de doutoramento sobre “a ausência da música portuguesa no contexto europeu”. Partindo de um ponto central, a ausência da música portuguesa do cânone musical da tradição erudita europeia, trata-se de tentar analisar os processos históricos que levaram a essa inexistência e ao seu prolongamento durante todo o século XX.

Luís Melo Campos
A música e os músicos como problema sociológico

Debatem-se alguns problemas que se colocam ao estudo do universo musical enquanto objecto de análise sociológica: primeiro, discutem-se possíveis delimitações do objecto; depois, equaciona-se o problema da música enquanto objecto e veículo de sentido; finalmente, alinha-se um questionamento dirigido aos universos socioculturais dos músicos.

Pedro Araújo
De dependentes da Estaco a dependentes do Estado: Desemprego de meia-dade e o Estado social como último reduto

Traçam-se as grandes linhas de um modelo de análise das experiências do desemprego, prestando-se particular atenção a um dos seus pilares: os mediadores de compensação. No âmbito dos mediadores de compensação, analisa-se a função que o Estado social desempenha na organização de estratégias de adaptação à privação de emprego por parte dos desempregados de uma cerâmica de Coimbra, a Estaco, que encerrou em 2001. A posição central que desempenha o Estado social permite que se perspective o desemprego de meia-idade como um acontecimento que compromete a capacidade dos indivíduos para assegurar a sua autonomia financeira e que amplifica a função social do Estado.

Noémia Mendes Lopes
Automedicação, saberes e racionalidades leigas em mudança

Analisam-se neste texto os saberes e racionalidades leigas em que se inscrevem as práticas de automedicação. O objectivo é demonstrar, após uma breve recensão crítica dos principais marcos teóricos da análise dos saberes leigos frente aos saberes periciais, as actuais formas de apropriação e reconversão leiga do saber pericial e as modalidades de pericialização que tais saberes comuns revelam. A discussão sobre as novas formas de dependência leiga em relação à pericialidade, em contraposição com as potencialidades sociológicas que essas formas encerram para o desenvolvimento de novos espaços de autonomia leiga, é desenvolvida através da temática da automedicação e de uma tipologia de modalidades de construção cognitiva leiga constituída por saberes espontâneos, saberes mediados e saberes confirmados. O carácter construído destes saberes, e não meramente mimetizado a partir do contacto com as fontes periciais, deixa em aberto a necessidade de um novo diálogo epistemológico entre as diferentes correntes teóricas que se debruçam sobre a reflexividade das sociedades modernas.

Mário Machaqueiro
Pensar a Revolução Soviética no século XXI: Revolução e estratégias identitárias

A problemática das identidades sociais tem sido um dos principais veios dos estudos soviéticos e pós-soviéticos, sobretudo desde os anos 90. Esses trabalhos contribuem para aprofundar a compreensão da Revolução Soviética, ao mesmo tempo que permitem uma articulação com a centralidade das questões identitárias no momento histórico presente. Retomando o espírito desses estudos, mas também de investigações que, entre nós, têm procurado desenvolver uma antropologia geral dos processos identitários, este artigo procura reanalisar a evolução do pensamento de Lénine e do regime bolchevique à luz da inserção identitária ambivalente da Rússia entre a Ásia e a Europa, entre o Oriente e o Ocidente. Para tal, recorre-se ao conceito de “identidade de fronteira”, utilizando-o para esclarecer as oscilações que caracterizaram as escolhas estratégicas dos comunistas russos no domínio da geopolítica.

Published 14 February 2008
Original in Portuguese

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