Sumários Revista Crítica 85 (2009)
José Reis
Os caminhos estreitos da economia portuguesa: Trabalho, produção, empresas e mercados
Considerando que a diversidade é uma marca essencial da organização das economias, este texto distancia-se das visões globalistas que têm predominado nas ciências sociais. Depois, analisa-se a economia portuguesa através de uma das suas características centrais – o amplo uso de força de trabalho – embora a disponibilidade do trabalho não tenha tido como consequência uma boa organização empresarial, faltando inovação e inclusão. O trabalho é, pois, a base do crescimento, mas não da justiça redistributiva. Os dilemas da economia portuguesa são ainda complementados pelos seus limitados mercados de exportação.
Antônio Ioris
Desenvolvimento nacional e gestão de recursos hídricos no Brasil
A gestão de recursos hídricos está relacionada não somente a práticas e tecnologias diretamente ligadas à distribuição, uso e conservação de água, mas também a questões mais profundas de desenvolvimento nacional e representação política. A experiência brasileira demonstra vividamente essa complexidade histórico-geográfica. Com a fase desenvolvimentista, o alto custo ambiental e as insuficiências de tais iniciativas passaram a exigir um esforço de mitigação e regulação mais rigoroso. Contudo, o novo marco legal introduzido em 1997 em grande medida reproduz a mesma racionalidade elitista e tecnocrática do passado.
Elsa Lechner
Migração, pesquisa biográfica e emancipação social: Contributo para a análise dos impactos da pesquisa biográfica junto de migrantes
Partindo de uma investigação em antropologia e com base na experiência de trabalho biográfico em grupo (UNEB, Brasil), apresentam-se os efeitos formadores, transformadores e emancipatórios das práticas de biografização. O texto fornece uma reflexão teórica, metodológica e sociopolítica acerca do trabalho biográfico junto de populações migrantes. É igualmente proposta uma aproximação consciente entre investigadores e profanos, no horizonte de uma epistemologia cívica, ou seja, da co-produção de saberes e da construção de coesão social.
Mauro Serapioni
Avaliação da qualidade em saúde. Reflexões teórico-metodológicas para uma abordagem multidimensional
Apoiando-se em uma revisão da literatura internacional, este trabalho propõe-se contribuir para o delineamento de uma proposta de avaliação da qualidade coerente com a complexidade conceitual e metodológica do tema. Para esse fim, após ter apresentado os primeiros estudos sociológicos sobre os utentes dos serviços públicos e após ter percorrido as três etapas do desenvolvimento da qualidade em saúde, o artigo analisa algumas questões-chave que deveriam nortear as avaliações em saúde.
Tiago Correia
A reconceptualização dos modos de produção de saúde no contexto da reforma hospitalar portuguesa
Este artigo debruça-se sobre as recentes reformas desenvolvidas no sector hospitalar português e a implementação de princípios da Nova Gestão Pública. Decorrente do processo de tendencial empresarialização dos hospitais públicos, elege-se como objectivo perceber em que medida estas reformas afectam o significado da prestação pública de cuidados. A abertura às regras de mercado e, consequentemente, a um contexto de concorrência associa a empresarialização à mercadorização da prestação pública de cuidados.
Paula Abreu
A indústria fonográfica e o mercado da música gravada – Histórias de um longo desentendimento
O artigo aborda a situação de crise que a indústria fonográfica actualmente atravessa, com o objectivo de mostrar como a história do campo fonográfico foi marcada por dúvidas e incertezas várias, e de como essas dúvidas sempre conduziram à reinvenção das convenções que têm plasmado a actividade deste campo organizacional e mercantil. A partir de uma perspectiva analítica que mobiliza contributos das correntes teóricas da sociologia económica de inspiração institucionalista e da economia das convenções, propõe-se uma discussão acerca dos dilemas vividos por esta indústria.
Nuno Medeiros
Acções prescritivas e estratégicas: A edição como espaço social
Contribui-se para um entendimento da edição como espaço social complexo, constituído por um conjunto de agentes que actuam como construtores activos na esfera das ideias e da cultura escrita. Por um lado, a sua intervenção prescritiva e selectiva no livro confere a este uma identidade própria que extravasa o texto na sua estrita acepção autoral. Por outro lado, o campo editorial e os agentes que o habitam integram processos mais vastos, configuradores de uma indústria específica e governados por interesses relacionados com a constituição de mercados de bens culturais.
José Ramalho, Iram Rodrigues, Jefferson Conceição
Reestruturação industrial, sindicato e território – Alternativas políticas em momentos de crise na região do ABC em São Paulo – Brasil
Discutem-se os efeitos sociais e políticos de crises e transformações econômicas sobre a história de distritos industriais, constituídos a partir da concentração de empresas de grande porte e de seus desdobramentos em termos de redes de pequenas e médias empresas. Tomando como exemplo a trajetória do principal distrito industrial brasileiro, contribui-se para o debate sobre o papel dos territórios e seus atores sociais, em especial os trabalhadores e seus sindicatos, em situações de crise da produção e do emprego, relacionadas à dinâmica das cadeias produtivas em uma economia mundializada.
Published 2010-02-25
Original in Portuguese
Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais
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