Sumários Revista Crítica 83 (2009)
António Sousa Ribeiro
Cartografias do não-espaço: A literatura do Holocausto
A partir de uma reflexão preliminar sobre o conceito de "cartografia fluida", abordase o topos da viagem na literatura do Holocausto. São analisados três romances, de Jorge Semprun, Albert Drach e H. G. Adler, concluindo-se que a inversão radical de um dos topoi centrais da modernidade levada a cabo nestas obras aponta para modos de representação do espaço que testemunham paradigmaticamente a prevalência de fronteiras impossíveis de transpor.
Ricardo Antunes
Desenhando a nova morfologia do trabalho: As múltiplas formas de degradação do trabalho
O presente texto apresenta alguns elementos empíricos e analíticos que configuram o que denominamos como nova morfologia do trabalho. Contrariamente às teses que advogaram o fim do trabalho ou visualizaram a sua desconstrução e perda de centralidade, procura-se compreender as novas modalidades de trabalho que estão em emergência no mundo contemporâneo, cujo traço mais visível é o seu desenho multifacetado, resultado das fortes mutações que abalaram o mundo produtivo e de serviços nas últimas décadas.
Destacam-se as consequências das distintas formas de trabalho presentes na era da informatização; o seu sentido pendular, que oscila ora em direcção à sua condição de perenidade, ora acentuando seu traço de superfluidade; e exploram-se analiticamente os significados da ampliação do trabalho imaterial no mundo do capital, indicando algumas das suas consequências na lei do valor.
Rogério Proença Leite
Localizando o espaço público: Gentrification e cultura urbana
O artigo discute a noção de espaço público, tomando como referente um estudo de caso sobre as políticas de requalificação urbana e gentrification no Recife, Brasil. A partir do estudo de caso, o autor problematiza o modo como nos usos do espaço (urbano) se confrontam concepções e práticas diversas de relação com o espaço público, atendendo em particular às tensões que emergem nas ressignificações que os processos de requalificação arrastam consigo. A análise do caso, centrada nos modos diversos e conflituantes como, nesse quadro, o espaço público se constitui como espaço de comunicação e cidadania, sustenta uma discussão teórica em torno da noção de espaço público, problematizada no seu duplo sentido: de esfera pública da comunicação e participação e de espaço físico de acesso e uso público.
Carina Sousa Gomes
Imagens e narrativas da Coimbra turística: Entre a cidade real e a cidade (re)imaginada
Num período em que se verifica um crescimento do fascínio turístico pelas cidades, este artigo procura compreender as formas como Coimbra se apresenta ao exterior, a turistas e visitantes. Sendo a cidade histórica e monumental uma das principais atracções da actualidade, parte-se dos materiais de promoção turística, que circulam nacional e internacionalmente, para abordar as formas como os recursos urbanos são transformados em factores de atracção turística. Porque as cidades são também lugares de imaginação e representação, discute se a noção de imagem por referência às operações de marketing e publicidade que se desenvolvem no quadro da promoção turística. O objectivo fundamental é desvendar a cidade (re)imaginada: aquela que, através do trabalho de tradução simbólica desempenhado por agentes promocionais e mediadores, circula pelos mercados do turismo – desvendando também as aproximações e distâncias entre a cidade turística e a cidade real.
Ana Delicado
Microscópios, batas brancas e tubos de ensaio: Representações da ciência nas exposições científicas
As exposições nos museus científicos não se limitam a transmitir conhecimento ao público, constroem e difundem determinadas representações da prática científica que se destinam a promover atitudes positivas face à ciência. Este artigo procura analisar as imagens da ciência mostradas pelas exposições, nomeadamente as representações dos cientistas, dos instrumentos e técnicas, do trabalho de laboratório e de campo. É por fim discutida a relevância de mostrar ao público dos museus "a ciência tal qual se faz".
Leonor Lima Torres, José Augusto Palhares
Cultura, formação e aprendizagens em contextos organizacionais
Das correntes de cariz mais tecnocrática e gerencialista às perspectivas de natureza mais crítica, o enfoque nos domínios simbólicos das organizações emerge como um denominador comum, uma espécie de pano de fundo que mapeia e define as potencialidades e os limites do desenvolvimento estratégico das organizações de trabalho. Partindo de um enfoque crítico e reflexivo sobre a problemática dos recursos humanos, o artigo debate a importância dos processos de educação não-escolar (não-formais e informais) na construção de aprendizagens culturais múltiplas e na sedimentação de culturas e identidades organizacionais. O cruzamento entre estes dois campos de estudo sugere novas pistas ao nível da acção organizacional, designadamente nos domínios das estratégias e modalidades de formação e de educação de adultos, dos processos de socialização e integração dos actores, das esferas da comunicação e das novas tecnologias, da redefinição dos perfis e desempenhos profissionais, entre muitas outras áreas estratégicas de intervenção organizacional.
Sara Araújo
Pluralismo jurídico em África: Ficção ou realidade?
Se é hoje consensual que o pluralismo jurídico tende a estar presente em todas as sociedades, especificidades várias conferem contornos próprios à discussão desta temática no contexto africano. Num continente fortemente marcado pela experiência de dominação colonial, uma leitura que concebe os direitos costumeiros não como ordens normativas que sobreviveram paralelamente ao direito colonial, mas como mais uma imposição do colonialismo, com vista ao controlo e à exploração da população, tem vindo a alimentar um intenso debate sobre a qualidade do pluralismo jurídico contemporâneo. Neste texto, discuto se o pluralismo jurídico na África pós-colonial é uma ficção jurídica, alheia aos cidadãos, inventada como parte da ideologia colonial do governo indirecto, ou se é uma realidade legítima, que tende a contribuir para a promoção do acesso à justiça.
Ana Cristina Costa, João Rodrigues
O nexo comensurabilidade-mercadorização e as limitações da análise custo benefício como guia para a acção dos poderes públicos
Este artigo pretende escrutinar os pressupostos teóricos e as implicações práticas da análise custo-benefício (ACB), actualmente um dos mais influentes e controversos instrumentos de avaliação das políticas públicas proposto pela ciência económica. O ponto de partida é o que designamos por nexo comensurabilidade-mercadorização que, como procuraremos demonstrar, estrutura o discurso e as recomendações de política da análise custo-benefício. Por nexo comensurabilidade-mercadorização entendemos a associação entre a defesa da comensurabilidade, ou seja, da ideia de que é sempre possível e desejável reduzir as diferentes dimensões de valor dos bens a uma mesma medida, podendo-lhes atribuir um preço, e a defesa da extensão dos mecanismos de mercado a esferas crescentes da vida social. A teoria da escolha racional é o esteio teórico da ACB, esteio cujas fragilidades na análise do comportamento dos indivíduos nem sempre estão claras quando se discutem os méritos e deméritos deste instrumento.
José Guadalupe Gandarilla Salgado
Para un conocimiento alternativo de las alternativas. A propósito de Boaventura de Sousa Santos
Partiendo de un análisis de la obra de Boaventura de Sousa Santos, este artículo discute la pertinencia y las posibilidades de desarrollar un pensamiento alternativo a los modos de conocimiento social y político del mundo que se afirmaron como dominantes y hegemónicos en el marco de la modernidad occidental.
Published 2009-08-07
Original in Portuguese
Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais
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