Sumários Revista Crítica 82 (2008)
Immanuel Wallerstein
Ler Fanon no século XXI
Discute-se a actualidade do pensamento de Frantz Fanon, em torno de três eixos principais que constituem outros tantos dilemas – o uso da violência, a afirmação da identidade e a luta de classes –, demonstrando como, no tempo presente, estas questões continuam a ser decisivas na luta por um sistema-mundo mais justo e solidário.
Maria Raquel Freire
Paula Duarte Lopes
Reconceptualizar a paz e a violência: Uma análise crítica
Os estudos para a paz encontram-se actualmente numa encruzilhada, sendo criticados pelo seu programa de investigação demasiado amplo, pela sua posição acrítica relativamente à terminologia utilizada e pela desconexão entre investigação e acção. Este artigo propõe a reconceptualização do núcleo teórico dos estudos para a paz, não só retomando a paz como valor central, mas também enquadrando o binómio investigação acção numa cultura da paz. Parte-se de uma crítica à narrativa convencional sobre conflitos, a qual evoluiu com a Agenda para a Paz de Boutros Ghali, reflectindo desde então uma narrativa centrada na paz. Contudo, apesar da adopção de uma nova agenda política para a paz, os resultados práticos não têm reflectido esta alteração, que se tem revelado mais formal do que operacional. O artigo defende, assim, que a paz e a violência não são mutuamente exclusivas, adoptando o conceito do continuum de pazes e violências e propondo uma peace web para melhor enquadrar as dinâmicas em questão, atendendo especialmente ao âmbito da implementação.
José Maria Castro Caldas
A arte da fuga: Os mecanismos da liquidez
A ideia de "liquidez" enquanto característica da fase actual da modernidade, presente na obra mais recente de Zygmunt Bauman, convida a uma leitura cruzada entre este autor e Keynes. Quer em Bauman, quer em Keynes, a liquidez aplica-se a relações que podem ser facilmente revertidas, ou revertidas a baixo custo, e a sistemas que, sendo caracterizados pela precariedade dos laços que unem os seus elementos constituintes, tendem a ser, eles próprios, instáveis e precários. Em ambos os autores, a liquidez e a especulação surgem como respostas racionais à incerteza e, ao mesmo tempo, como estratégias individuais que contribuem para o aumento do risco sistémico. As duas abordagens são complementares e coerentes. A leitura cruzada sugere a existência de mecanismos da liquidez transversais a diferentes domínios institucionais cuja identificação é aqui ensaiada.
João Pedroso
Patrícia Branco
Mudam-se os tempos, muda-se a família. As mutações do acesso ao direito e à justiça de família e das crianças em Portugal
Perante novos cenários de famílias, moldados sob o signo da flexibilidade, da fluidez e da pluralidade, o direito da família e das crianças é chamado a responder a novos problemas, de contornos ainda pouco definidos, que se manifestam entre uma tendência para a privatização, desinstitucionalização e contratualização das relações familiares, por um lado, e uma tendência para a (re)publicização, por outro, designadamente em matérias de novas conjugalidades e de defesa dos direitos das crianças. A estas duas velocidades transformativas – a família e o direito da família e das crianças, a que correspondem uma velocidade rápida e outra moderada, respectivamente – vem juntar-se a uma terceira velocidade, mais lenta, a do sistema de acesso ao direito e à justiça de família, sem o qual esses direitos nunca serão efectivos e não poderão ser exercidos, em plena cidadania, por todas/os aquelas/es que tenham necessidade de procurar a sua tutela.
Luciana F. M. Mendonça
Culturas populares e identificações emergentes: Reflexões a partir do manguebeat e de expressões musicais brasileiras contemporâneas
O artigo analisa a interacção de diversos factores que, relacionados com transformações socioculturais recentes, contribuem para a centralidade da música e de outras formas de expressão estética em processos de rearticulação das identidades, no âmbito dos quais se observa um renovado interesse pelas manifestações populares tradicionais e a dinamização de espaços urbanos. Buscando a comparação com outros contextos, toma-se como ponto de partida o estudo do movimento manguebeat, de Recife, Pernambuco, cujos elementos permitem a discussão de questões ligadas às relações entre o local e o global, a tradição e a modernidade, a criação e a fruição cultural. A pesquisa confirmou algumas tendências da música contemporânea, que colocam certas formas musicais regionais em sintonia com as transformações do campo musical em geral. Uma questão chave é a dos processos de ressignificação das culturas populares.
Catarina Martins
"Imperialismo do Espírito". Ficções da totalidade e do Eu no modernismo austríaco
Nos estudos sobre a Áustria, persiste o debate sobre a aplicabilidade da teoria pós colonial à monarquia habsbúrgica. Este texto pretende contribuir para esse debate, analisando estruturas discursivas comuns aos impérios continentais de raiz medieval e aos impérios coloniais modernos e avaliando criticamente algumas especificidades. Para tal, analiso a utopia de um "Imperialismo do Espírito" presente na obra ensaística de dois escritores centrais do modernismo vienense, Hugo von Hofmannsthal e Robert Müller, demonstrando a construção discursiva de um imperialismo e um nacionalismo singulares, assente na cultura e nas artes. Para além disso, a partir dos romances maiores de Robert Müller e de Robert Musil, demonstro como o imperialismo funciona como fulcro da complexa relação da literatura modernista com o paradigma moderno, sendo, ao mesmo tempo, alvo de crítica e de reescrita, no âmbito da resolução das múltiplas crises da modernidade, em particular a do sujeito.
Heloisa Maria Murgel Strarling
A República e o Sertão. Imaginação literária e republicanismo no Brasil
Este artigo tem por objetivo refletir sobre as pretensões de enraizamento e ancestralidade dos fundamentos políticos do republicanismo no Brasil. Para tanto pretende retomar as formulações sobre o conceito de sertão gerado no interior da imaginação histórica e literária brasileira como um dos caminhos possíveis para interpretação da República e de seus ideais normativos. O recurso à idéia de sertão exprime a importância do registro de imaginação, invenção e simbolização para compreensão do tema da fundação. Nesse cenário, o artigo pretende retomar o conceito de sertão no percurso da imaginação literária brasileira ancorado por três autores: Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa.
Published 2009-02-23
Original in Portuguese
Contributed by Revista Crítica de Ciências Sociais
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